A paleta das cores

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Birds born in a cage think flying is an illness.

Alejandro Jodorowsky

 

Estou a arranjar as mãos e tenho de escolher, entre as várias tonalidades de gelinho vermelho, aquela que me irá ser aplicada esta manhã. Num leque de tons que vão dos mais claros, próximos do laranja, até aos mais escuros a aproximarem-se do beringela, inclino-me para um intermédio. Entre mais uma lixadela, um arrancar de peles com o alicate, um acertar amendoado da curvatura da unha (nunca gostei muito do formato a direito) continuamos a conversar sobre banalidades. Não existe confiança que nos permita entrar em intimidades, mas a conversa flui naturalmente. Como as cerejas, diz-se!

Sem se saber porquê a manicure começa a falar da mãe, e as lágrimas rompem o dique que as aprisiona, por entre um piscar de pestanas mais acelerado. Pede desculpa, explicando-se:

– Perdi a minha mãe aos cinco anos e, ainda hoje, sempre que falo dela, choro.

Tinha razão para o fazer porque, ficar sem chão nesta idade, deve ser uma dor que nunca se esquece. Deixei-me levar pelo momento e também eu recordei a minha.  Quando demos conta, falávamos de datas, da idade delas, da nossa e, como não podia deixar de ser, do luto. Da cor do luto que, até há bem pouco, obrigava as mulheres a cobrirem-se de negro dos pés à cabeça. Num Portugal já de si cinzento, vultos negros, no caso de serem viúvas, carregavam a cor da perda até ao fim das suas vidas.

– Minha mãe nunca gostou de roupa preta – disse-lhe eu. – Por isso, e seguindo-lhe a vontade, nunca fiz do luto uma bandeira. Não pus por minha avó (mãe dela), minha mãe, meu pai e meu marido, só para falar dos mais chegados.

Após a morte de alguém mais íntimo, fico indiferente à cor que uso? Claro que não! Há um inexplicável sentir, que brota das entranhas, a recusar os vermelhos, os verdes abertos ou os amarelos. A tristeza que habita em nós transpira do corpo e não os aceita. Não sei de que cor é a tristeza, mas sei que ela lida melhor com as cores claras.

Em determinada altura, com as minhas mãos nas suas, confessou:

– Eu tinha cinco anos, mas obrigaram-me a vestir de preto durante um ano!

Criada em Angola, habituei-me a ouvir falar dos xailes negros que ocupavam os primeiros bancos na missa, mas nunca me passou pela cabeça que a uma criança fosse imposta tão severa tradição.

Roseli Boschilia, historiadora brasileira, diz-nos que “a família é por excelência o «locus» onde ocorre a construção e a transmissão dos significados, sendo esta também responsável pela interpretação da realidade que se constrói a partir de uma determinada visão do mundo, que se ancora, em grande parte, no universo simbólico”. Reconheço que assim é! Mas as crianças, Senhor!? Porquê sujeitá-las a práticas cujo significado não entendem?

– Quando cumpri o ano, eu já nao queria outras cores. Sentia-me bem de preto! – continuou.

Ao ouvi-la, recordei a citação de Alejandro Jodorowsky que me serviu de epígrafe, porque pensei nela como um pássaro que, prisioneiro do luto, deixara de poder voar com outras cores. 

O hábito cria automatismos que ganham a força de uma segunda pele. Agora que a guerra de audiências entre os dois canais de televisão – SIC e TVI – está ao rubro, ao ponto de se entrevistar alguém que reclama e defende um novo Salazar, quero acreditar que esse Portugal cinzento esteja bem sepultado nas camadas mais profundas da nossa memória. 

Enquanto eu puder livremente escolher, a minha paleta privilegiará as cores da paz e da liberdade que, como sabemos, nunca foram pintadas de negro.

Aida Batista

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