Opinião

Viajantes do futuro

Estou no sotavento algarvio a desfrutar de uma semana de praia. A primeira desde que os banhos de mar foram desconfinados. Nunca antes havíamos imaginado que um dia o mar pudesse ser fechado. Deitada na toalha leio a revista Visão, a que trouxe comigo e ainda não havia sido sequer aberta. Detenho-me na crónica da rapper Capicua “Nada voltará a ser como dantes”. Pelo título, depressa adivinho o assunto a que ninguém consegue fugir. Como falar do presente implica fazer comparações, inevitavelmente acabamos a falar do passado. E assim Capicua viaja até aos tempos da sua infância, quando a avó Sofia “não deixava que partilhássemos copos entre primos, ou que déssemos uma trinquinha no pão ou no gelado uns dos outros”. Ainda na idade da inocência, Capicua não sabia, mas estes hábitos da avó haviam-lhe ficado do tempo de uma perigosa convivência com outra pandemia – a tuberculose -, que lhe levara colegas de escola e um primo muito chegado.

E como o tempo flui naturalmente, embora o ritmo nos pareça ainda mais rápido quando estamos de férias, outra quinta-feira chegou impondo o ritual da compra da edição da Visão desse dia. De novo à beira mar, é hora de a folhear e escolher por onde começar. Esta é uma das vantagens que as revistas, ao contrário dos romances, nos oferecem: a página por onde começar. Desta vez, escolho Miguel Araújo porque “A minha avó”, o título da crónica, me desperta igualmente a atenção. Foi como se os dois músicos tivessem combinado recordar as suas avós em duas edições seguidas.

Coincidência ou não, tudo à minha volta me fala de avós. “Avó, posso ir à água?, Avó, estou com fome… dás-me o pãozinho?, Avó, já me podes comprar o gelado?” e terminar no inevitável ”Avó, quero fazer chichi.”

Crianças sem creches, sem infantários e sem escola são, de novo, devolvidas aos cuidados dos avós. Estamos em junho e a afluência às praias é ainda reduzida, mas as vozes que me chegam denunciam o parentesco dos que se reunem debaixo e à volta dos chapéus de sol. A palavra “avó” voltou a ouvir-se no ar depois dos meses em que viveu aprisionada em fios de telefone, em aplicações de telemóveis ou nos ecrãs dos computadores. Finalmente, soltou-se e começou a recuperar os espaços onde avós e netos celebram o convívio que lhes fora roubado. Sem máscaras nem distanciamentos, há corpos quase nus  – pormenor importante porque há mais pele para sentir – que se tocam, abraçam e beijam, a recuperar um tempo perdido.

As praias ainda não precisam da sinalética das cores a indicar a lotação. Muito menos de semáforos, como de início alguém alvitrou: vermelho, proibido entrar, enquanto verde permitiria livre trânsito. Pode-se circular à vontade e escolher o espaço do areal sem fita métrica. Cada um de nós se tornou perito em cálculo mental treinado no bom senso de não se aproximar demasiado do chapéu ao lado. Os restaurantes estão vazios; os poucos que lá almoçam privilegiam as esplanadas, agora bem mais silenciosas, como se até os altiflantes se tivessem tornado mais sensíveis ao volume dos decibéis.

No horizonte, o mar oferece-se quieto, vazio de insufláveis, de motas de água, de gaivotas pedaladas por adultos e crianças ao desafio.  O areal, poupado ao pregão dos vendedores das bolas de berlim – Bolinha, bolinhé! Com creme ou sem creme?- mostra-se liso de pegadas. Apenas o som do vento a sacudir chapéus e guarda-ventos que nos protegem da areia que se levanta.

Esta é a nova normalidade, como agora se diz, aquela que o futuro nos reservou. Indefinida, porque ainda não aprendemos a viajar neste tempo incerto. De ora em diante, seremos todos aprendizes de viajantes deste céu futuro, guiados pelas vozes que (h)ouve dantes.

“Creio num céu futuro que houve dantes.” – Natália Correia

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