Opinião

Viagem em três andamentos

Com o tempo, os fumos evaporaram-se,

ficou apenas o perfume e a nostalgia de uma glória

longínqua, menos no espaço que na memória.

Eduardo Lourenço

 

Vivi nove meses no aconchego do ventre de minha mãe, até que, sob a influência da lua – diziam os antigos – chegou o dia em que, num grito de alforria, emigrei para o seio da família que me esperava no cais de uma gestação bem sucedida, situado na zona do Douro Vinhateiro.

Primeiro o pai – a quem as fráguas estreitas e íngremes do rio limitavam a grandeza do sonho – depois a mãe, acompanhada das duas filhas (eu e minha irmã), decidiram cruzar o mar para, numa praia mais a sul do Equador, fixarem a âncora da minha identidade e de todos os irmãos que se seguiram.

Na costeira cidade de Benguela, cresci, fiz-me mulher e mãe de dois filhos (uma menina e um rapaz), alheia à forma como a sociedade estava organizada. Estudei no colégio das Doroteias, cujo regime de internato permitia que as filhas dos fazendeiros e comerciantes ricos da província lá vivessem. Durante todos os anos da minha escolaridade, tive colegas mestiças, mas, nem uma preta! Nas escolas oficiais, já se viam algumas, mas só depois de eclodir a guerra, em 1961, as turmas começaram a ganhar um colorido humano.

Confesso que nunca partilhei do slogan criado por Fernando Pessoa: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”. Não estranhei nada, e desde sempre entranhei que o regime era mesmo assim! Numa família remediada, a grande preocupação de meu pai era trabalhar para alimentar e educar a prole que aumentava de ano para ano. Eu, desde muito cedo cuidadora de irmãos, tentava desempenhar esta atividade juntamente com a outra, a de estudante, nunca tendo perdido ano algum.

Sem mala de cartão, mas um filho em cada mão, em 1975, vi-me no aeroporto de Luanda a fazer parte de uma ponte aérea, de regresso ao país onde nascera, mas lá não vivera. O país que eu estudara cruzava o mapa do Minho a Timor, e fui apanhada de surpresa, sem nada entender do direito à autodeterminação. Já estávamos em guerra, para onde tinham ido soldados em força, mas ficava tudo tão longe que nunca dela me dei conta.

De início, sem trabalho e sem salário, valeu-me o teto da casa do pai dos meus filhos, no interior de um Portugal muito provinciano, que ainda criticava as mulheres que fumavam e olhava de soslaio para as que usavam calças e se apresentavam com corpos mais descobertos. Sozinha, a cuidar dos filhos, a trabalhar e a estudar em simultâneo, trauteei a estrofe da pedra filosofal e deixei que o sonho comandasse a vida. Era emigrante pela terceira vez, mas o nome que me deram foi de “retornada”. Nada sofri com o epíteto, porque rapidamente aprendi a viver com a gramática de uma nova vida.

No ano em que se perfazem mais de quatro décadas sobre a Independência de Angola, continuam os encontros dos que retornaram ao torrão inicial do império desfeito. Qualquer pretexto serve: o mesmo colégio, a mesma escola, o mesmo liceu que frequentaram, ou a mesma cidade onde viveram. São reuniões em que se partilham vivências, gastronomia, espaços, música e um léxico comuns. Também participo em algumas e nada tenho contra. Apenas coloco reservas quando se transformam em exercícios de  romarias ao passado plenas, na maioria das vezes, de um saudosismo nem sempre muito saudável, porque há quem nunca se tenha recomposto da perda.

Em época de redes sociais, esse sentimento é mais notório porque continuamente expresso nos apontamentos, relatos, vídeos, canções, poemas ou fotografias que insistem em colocar e rever até à exaustão. Memórias de vidas paradas no tempo, alimentadas, como escreveu Eduardo Lourenço, do perfume e da nostalgia de uma glória longínqua.


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