Opinião

Uma vida a duas vozes

Até as torres mais altas começaram do chão.
Provérbio chinês

É habitual propor ao presidente da autarquia onde resido uma ou outra atividade que entenda ser de interesse para o município. Será de inteira justiça reconhecer que, após uma reunião preparatória, em que, além do presidente participam outros técnicos responsáveis pela área da iniciativa, tenho sempre encontrado a maior recetividade e apoio às propostas apresentadas.

A última decorreu no passado fim-de-semana, e constou de uma visita guiada ao património artístico, no sábado (Convento de Santa Maria da Caridade, Igreja Matriz, Igreja da Misericórdia), para os Amigos da Fundação das Casas de Fronteira, e de uma conferência no domingo, intitulada “Do Sardoal para o Mundo”.

Na sessão de abertura da conferência, a proferir no Centro Cultural Gil Vicente por João Soares, técnico superior de Conservação e Restauro, Miguel Borges, Presidente da Câmara, depois de ter saudado os presentes, teve a gentileza de destacar o meu papel como divulgadora do património sardoalense, sublinhando o facto de eu não ser natural do Concelho.

É habitual, nestas ocasiões, fazer a destrinça entre os lugares de nascimento e os de adoção, salientando a nossa dedicação como se de naturais se tratasse. Defronto-me, então, com um conjunto de reflexões sobre a minha relação de pertença aos diferentes espaços, com os quais tive alguma ligação ao longo da minha vida.

A minha cédula de nascimento é clara quando atesta a minha naturalidade: freguesia de Pinheiros, concelho de Tabuaço. Faço parte da cepa dos que nasceram com os pés enterrados nos socalcos do Douro Vinhateiro, porque de lá eram também meus pais, avós e bisavós, tanto do lado materno como do paterno. Ou seja, as minhas raízes mais ancestrais mergulham nas terras graníticas e xistosas que deram calor e humidade ao famoso vinho da região.

Muito cedo (com pouco mais de um ano) fui arrancada àquele chão, tendo sido transplantada para um outro mais a sul do Império, a fim de, com minha mãe e irmã, ir ter com meu pai que abraçara a aventura da emigração. Foram mais de vinte e cinco anos a pisar chão de África, de onde novas raízes se ergueram alimentadas das mais variadas cores, sons, sabores e linguagens que, depois de dominadas, passei aos meus dois filhos.

Regressada à pátria que me viu nascer, lentamente fixei outras raízes, denunciando com frequência aquelas que deixara. Entretanto, e porque forjara já uma identidade nómada, composta de inúmeras afiliações que não queriam ser escravas de um só chão, sonhei outros lugares. Nestes, não criei raízes, mas deixei-me tocar por eles, ousando afirmar que também lá devo ter deixado as minhas pegadas. Marcada por vários e diferentes chãos, viverei sempre este conflito interior de ter de me interrogar sobre o lugar a que pertenço – onde nasci? onde cresci? onde forjei a minha identidade? -, e aquele que consideram ser o de adoção, ou seja, onde vivo há mais tempo.

Nestas alturas, compreendo melhor os imigrantes. Chegada a hora de se definirem, como se sentem? Que voz fala mais alto: a da razão ou a do coração? Para que lado penderá o fiel da balança, quando num dos pratos está o peso do bem estar e no outro o da saudade?  Os exemplos que conhecemos dizem-nos que a maioria dos emigrantes está condenado a falar a duas vozes, alternando a da razão e a do coração consoante as circunstâncias com que se confrontam no quotidiano.

O ideal seria que não tivessem de escolher. Que lhes fosse possível viver tranquilamente a duas vozes, deixando que estas estabelecessem proveitosos diálogos de entendimento entre si, de modo a que o dueto final fosse uma composição tanto mais enriquecedora quanto as diferentes vidas que viveram.

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