Opinião

Um país, 2 presidentes e vários mortos!..

A situação na Venezuela tem-nos deixado pregados aos écrans televisivos, na expectativa que aconteça um “milagre”, à semelhança do que ocorreu em Portugal, a 25 de abril de 1974.

Mas tal não me parece possível (para já…) e as razões são de peso! Não apenas porque as contradições que envolviam as tropas portuguesas e o regime político da altura não existem na Venezuela, onde os militares fiéis a Maduro beneficiam de um tratamento económico muito favorável, em relação à imensa maioria da população a viver em condições miseráveis e onde as realidades políticas internas e externas são bastante diferentes das que se viviam no nosso país em 74.

Não vou falar dos acontecimentos factuais que se têm passado na Venezuela, uma vez que já foram amplamente noticiados. Prefiro relembrar apenas alguns aspetos que se interligam com esta situação e que a condicionam.

A oposição a Nicolas Maduro tem assumido variadas frentes de batalha, mas todas elas soçobram face à realidade existente, bem consubstanciada na célebre frase maoista: “O poder está na ponta da espingarda”!

Se expor ao mundo a dramática situação em que se encontra o povo venezuelano, ajuda a sensibilizar e a cativar os outros povos e seus governantes, para o apoio humanitário de que necessitam, não é menos verdade que esse apoio esbarra nas portas fechadas pelos esbirros de Maduro, ou seja, nas “espingardas”!

Cativar o apoio de outros países para a causa constitucional de Juan Guaidó, reconhecendo-o como presidente interino até à efetivação de eleições internacionalmente reconhecidas na Venezuela, confronta-se com os interesses particulares e geopolíticos de várias potências militares e económicas, como a Rússia, a Turquia ou a China, para além do papel dos próprios EUA e seus aliados, na pressão e obtenção de vantagens sobre os primeiros. Se, por um lado, os créditos de muitos milhões de dólares emprestados à Venezuela, por Pequim e Moscovo, não foram a “fundo perdido”  e sem compensações, as maiores reservas petrolíferas do mundo e os enormes recursos em ouro, fazem da Venezuela um território objeto do apetite voraz de todos, para além da estratégia da política externa americana, em relação à Venezuela, ser semelhante à que utilizou com Cuba.

Naturalmente que a situação humanitária em que vivem os venezuelanos acaba por impressionar todos os povos que têm acesso à informação e às imagens dessa calamidade, no entanto, a sua eficácia contra o regime corrupto de Nicolas Maduro é aprazada a longo termo. Não só porque a situação precária em que se encontram os venezuelanos é semelhante a muitos regimes ditatoriais apoiados pelos países externamente intervenientes neste conflito, mas porque nenhum, a favor ou contra, estará eventualmente interessado em intervir diretamente nele, nas atuais condições de desafio global em que se encontra o mundo e sob pena de prejudicar ainda mais a solução da situação.

A Maduro, jogando na preservação do seu poder, através da pacificação da sua oposição interna e numa maior tranquilidade das críticas internacionais, resta-lhe minimizar as carências do seu povo, abrindo as portas à ajuda humanitária que não ponha em causa a sua posição, manter os privilégios das suas forças armadas, continuar a brandir os chavões e impropérios habituais contra o imperialismo e subordinar-se à estratégia dos seus apoiantes internacionais.

Mas será que nada impedirá Maduro de continuar a exercer o seu despotismo? Creio que sim! Embora seja prematuro adivinhar como isso irá acontecer.

Uma manifestação convocada pela oposição pode vir a degenerar num mar de sangue, provocado pelas forças militares ou pelas suas milícias armadas (nem sempre bem controladas) e um número considerável de mortos provocar uma “tempestade” internacional, capaz de convencer algumas das altas patentes militares, à abdicação da sua fidelidade a Maduro e engendrar um golpe.

A desistência do apoio da China a Maduro, que parece estar mais inibida no seu suporte ao atual regime venezuelano, pode igualmente minar a base de defesa desse déspota.

A retenção externa dos elevados meios financeiros provenientes do petróleo venezuelano, como anunciaram executar os EUA (embora sejam um dos grandes importadores do seu “ouro negro”), bem como das fortunas dos seus dirigentes, pode provocar um colapso no sistema e a desistência dos seus apoiantes.

Agrupada no conjunto das circunstâncias anteriores, uma ação bem orquestrada por uma qualquer agência de espionagem internacional (…), destinada a minar/comprar a confiança das elites militares para o campo da oposição a Maduro, pode apressar a queda do regime. Afinal, esse tipo de agências já colocou no poder tantos ditadores, que bem podem fazer um serviço à humanidade destituindo um!…

O que se passou no último fim de semana e que aparentemente diagnosticava uma estrondosa vitória da oposição ao regime de Maduro… foi um impasse, mas não o fim! 

Os acontecimentos que conduzam ao desaparecimento do atual sistema político-militar da Venezuela e do sofrimento do seu povo, mais tarde ou mais cedo, acontecerão, embora talvez por etapas. É preciso continuar a acreditar!

A Venezuela não é só petróleo. É um país que pode vir a ser suficientemente rico para não depender de qualquer tipo de ajuda externa. Saibam os seus futuros dirigentes trabalhar para a felicidade e bem-estar do seu povo.

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