Opinião

Trump foi à “bruxa”?

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Crédito: AP Photo/Patrick Semansky

No mundo em que são estimados 35 milhões de infetados e um milhão de mortos, causados pela pandemia de coronavírus e mais precisamente nos EUA, onde esta doença já infetou mais de sete milhões de pessoas e causou mais de 200.000 mortes, falar sobre o estado de saúde do Sr. Trump, também ele provavelmente infetado pela Covid-19, pode parecer imoral pela sua insignificância, face aos milhões de cidadãos afetados pela mesma doença. Pode parecer, mas não o é, por vários motivos!

Perante um personagem que, pelo lugar que ocupa na sociedade americana e no conjunto de nações onde exerce a sua influência e que tanto se manifestou contra as medidas preventivas da Organização Mundial de Saúde, no que diz respeito à perigosidade deste vírus, criando um regimento de acólitos das suas ideias negligentes entre outros grupos e dirigentes de outras nações e que, perante um estrondoso avolumar de casos de infeção e mortes no seu próprio país, continuou a não renegar tudo o que imprudentemente antes afirmou, falar sobre a sua dita recente infeção por Covid é, antes de tudo, uma exigência moral das sociedades.

Os meios de comunicação social mundiais expuseram a hospitalização deste famoso doente com toda a pompa e circunstância que o facto merecia, mas sem no entanto deixar de reproduzir algumas aparentes contradições sobre o estado de saúde e os medicamentos a que Trump estava a ser sujeito: o doente afirmava que estava com uma saúde excelente e a trabalhar normalmente e os médicos, mais cautelosos, afirmavam apenas que ele estava a evoluir bem; de notar as sucessivas contradições entre o Chefe de Gabinete de Trump e as declarações dos médicos sobre o seu estado de saúde; a Casa Branca dizia que ele não tinha recebido oxigénio para mais tarde admitir que sim; a especulação a que ninguém deu uma resposta cabal, sobre a data em que foi testado positivo e se a mesma era anterior à sua apresentação num comício onde ninguém respeitou as regras de prevenção; se Trump tinha apenas sintomas leves infeciosos, como disseram, porque é que a terapia que dizem ter sido administrada utilizou um cocktail de tratamentos experimentais?

E, à medida que as poucas notícias clínicas sobre o assunto iam evoluindo, as reações de quem consome jornais e televisões também eram (a meu ver…) contraditórias. Para uns… “Coitadinho deste paladino das liberdades e da sua simpática e obediente esposa”, enquanto para outros… “Pela boca morre o peixe”!

Ao conhecermos o caráter de mentiroso compulsivo deste atual Presidente dos EUA, a forma desabrida como encena as suas afirmações e determinações presidenciais e o momento politicamente explosivo por que está a passar, na tentativa de renovar o seu mandato, depois do desaire do seu confronto com Joe Biden, cuja sondagem (Wall Street Journal e da NBC) após o debate, permitiu a Biden ganhar mais vantagem sobre Trump (Biden com 53% contra 39% para Trump), este último teria que urdir um plano espetacular para inverter a tendência das sondagens.

Reconhece-se que, nesta fase da campanha eleitoral americana, os candidatos alimentam-se das sondagens e dão uma enorme importância à sua classificação no escrutínio das opiniões dos seus concidadãos, razão que os conduz às mais diversas estratégias (e a história recente americana bem o confirmou…) para assegurar o seu melhor posicionamento, muitas vezes com procedimentos pouco ou nada democráticos, cujo conhecimento público só se obtém “à posteriori” das eleições e que depois de infindáveis investigações, inquéritos e procedimentos legais, raramente concluem com a culpabilização do(s) prevaricadores, não era de estranhar que o plano de Trump tivesse alguma componente mágica, capaz de “embruxar” o seu adversário e manter o seu perfil político, sem se redimir de todas as asneiras que tem cometido.

Assim, perante a confusão instalada com esta infeção por Covid-19 do Presidente americano, poder-se-ia pensar que o atual Presidente, com a preocupação agravada pela falha dos seus eventuais resultados eleitorais, a um mês das eleições e depois de: ter criado a expetativa de não aceitar os resultados eleitorais caso perdesse; de se ter oposto ao voto por correspondência onde o eleitorado não lhe é favorável; de ter nomeado uma nova juíza que lhe é favorável para o Supremo Tribunal (pode dar jeito…), antes das eleições; ter apelado aos extremistas racistas para aguardarem (??), entre tantas outras atitudes que o identificam como um “pequeno” ditador irresponsável, recriasse uma manobra de diversão com uma “suposta” infeção Covid que, eventualmente, não passou de uma “gripezinha” (como diria seu amigo Bolsonaro…), numa manobra tática capaz de granjear o apoio daqueles que tiveram compaixão pelo seu sofrimento ou, se começar de imediato a trabalhar na presidência e na sua campanha eleitoral, como se nada tivesse acontecido, suscitar o apoio de todos aqueles para quem Trump é o “homem” forte da supremacia branca, vigoroso e decidido, capaz de vencer a Covid, bem na linha das declarações feitas na hora por uma das suas filhas (Ivanka Trump): “Nada pode impedi-lo de trabalhar para o povo americano. IMPLACÁVEL”! E, se tal acontecer, acabará igualmente convencendo os seus cidadãos a continuar a desprezar as medidas preventivas contra esse vírus.

Esta “teoria” parece-me um pouco rebuscada e a roçar a má (??) qualidade de tantas outras consideradas “teorias da conspiração” que, pelas quais, não nutro grande simpatia mas, no entanto e considerando todo o potencial de aconselhamento da sua campanha eleitoral, o histórico do candidato Trump e o comportamento geral da sociedade americana, sinto-me obrigado a afirmar que «No creo en brujas, pero que las hay, las hay»!

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