Opinião

Sincelo à porta

A porta da minha casa é
a filha menor da porta do céu.

Yehuda Amichai,
poeta hebraico

A história do chão das minhas raízes chegou-me desde muito cedo pela voz dos meus pais. Ainda criança, e quando ouvia relatos da terra que eles haviam deixado, inventei rostos para todas as pessoas de quem falavam – mas nunca cheguei a conhecer -, que há muito habitavam o meu universo infantil. Minha mãe, por exemplo, sempre me disse que me dera o nome Aida, por ser como se chamava uma grande amiga sua da Granja do Tedo, que morrera de tuberculose. Imaginei-a morta, enxuta e lívida no leito das despedidas e das últimas vontades, sem que nunca tivesse sabido que me deixara este nome como herança.

O mesmo se passava com a geografia da paisagem que também aprendi a idealizar na cartografia da minha imaginação, onde rasguei socalcos de vinhedos em descidas íngremes a desaguar no Douro. Habituada à monotonia plana do chão onde crescera, cortado aqui e ali por morros de terra castanha, não fazia a menor ideia do que seriam serras e montanhas a tocar as nuvens.

Mas se as geografias humanas e físicas podem ser objeto de uma construção mental próxima da realidade, o mesmo se não poderá dizer do clima. O frio não se imagina, sente-se! Criada descalça e pouco vestida, que o calor de África não exige grandes agasalhos, não entendia aquele frio que me diziam penetrar nos ossos, entesar a roupa do estendal durante a noite, gelar a água nas torneiras dos fontenários ou esculpir pingentes de gelo nos pinheiros, a que meus pais davam o nome de sincelo. Só por tentativas encontrei, bem mais tarde, a palavra no dicionário já que não sabia exatamente como se escrevia.

A viver em clima de apenas duas estações – a do cacimbo e a das chuvas – aprendera na primária a nomear as outras quatro estações do ano, sabendo de cor como os campos se transformavam em cada uma delas. No entanto, na descrição do inverno, nunca as freiras haviam alguma vez pronunciado aquela palavra que só meus pais conheciam – sincelo! E eu pensava que se as freiras não a diziam é porque ela não existia. Foi por isso que, durante tantos anos, a guardei só para mim, pensando que fosse um termo de gente rural que tudo confundia ou dizia mal, por não ter tido outro mundo que não fosse o apertado perímetro da sua aldeia.

Quando chegava o Natal, a caixa postal dos correios com o nº 473 começava a receber os cartões de Boas Festas da família que vivia na Metrópole. Em cada ano me deslumbrava com as casinhas vermelhas nas dobras dos mantos de neve da paisagem e as agulhas dos pinheiros cobertas de flocos como se fosse algodão. E interrogava-me: “Seria àquilo que os meus pais chamavam sincelo?” Nunca perguntei, e também não me lembro de alguma vez ter partilhado esta dúvida com algum dos meus irmãos.

Com a baixa das temperaturas, os telejornais mostraram belíssimas imagens do nosso nordeste transmontano, onde se viam árvores da mais variadas espécies vestidas de cristais de gelo a que os jornalistas deram o nome de sincelo.

Não sei se estive desatenta durante todos estes anos, mas só agora, entrada já na minha terceira idade, ouvi pela primeira vez  a palavra sincelo para descrever este tipo de fenómeno. E voltei com o comando atrás para me certificar. Não me havia enganado!

Senti vontade de partilhar com meus pais a palavra tantos anos escondida, mas agora é tarde. Se a porta da casa, segundo o poeta hebraico, é a filha menor da porta do céu, é na soleira que a vou colocar para que eles a vejam, e saibam que sempre estiveram certos.

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