Opinião

Silêncio entre datas

“A música é o silêncio entre as notas.”

Claude Debussy

Mais um Dia de Todos-os-Santos, mais um aniversário que celebrarias, querida mãe, se não se completassem trinta anos sobre a tua ausência. Uma ausência marcada por uma data redonda, como redondas deveriam ter sido todas as lágrimas que não pude chorar, adiado que foi o luto por um interregno de meses. A nossa dor cala-se quando uma dor mais alta se levanta, como foi a do pai que, sentado numa cadeira de silêncios da sala do hospital, recebeu a notícia da tua partida sem aviso e sem bilhete de regresso.

Ficámos sós, órfãos de ti, mas negando a orfandade num exercício ilusório de quem queria prolongar-te no tempo para que pudesses continuar junto de nós. A burocracia que se seguiu exigiu de mim a pouca energia que restava daquele torpor em que me encontrava, e confrontou-me com a crua realidade.

Durante anos a ver-te saudável, a sorrir à vida sem queixas nem lamentos, a desfrutar de cada canto da casa, da família e dos amigos, embalando as rotinas dos dias de trabalho com uma canção na boca, não imaginaria que, às sete da tarde, uma trombose na mesentérica, como reza a certidão de óbito, amordaçaria a voz que se calou para sempre!

Não tenho por hábito homenagear os meus mortos apenas em Dia de Finados. Por isso, não me desloco à aldeia para te alindar a campa num colorido de flores de que tanto gostavas, nem acendo velas para iluminar as trevas em que te sepultaram num entardecer de maio de 1989. A tua campa rasa, como o pai decidiu e bem, não faz parte da tumulária do cemitério da aldeia. Está dentro de mim, como uma pedra de saudade que me rasga o corpo, e dentro dela emparedei todas as lembranças guardadas de ti.

Celebrar-te é cavar metaforicamente a terra com que te cobriram e, torrão a torrão, esfarelar as memórias que te devolvem ao meu quotidiano. E como são tantas, mãe! De todas, a que mais me visita é o ruído da agulha da máquina de costura a penetrar no pano dos dias em que costuravas horas, umas a seguir às outras. À medida que as tuas pernas ganharam riscos azulados de tortuosas varizes, como rios dilatados pela pressão das margens, o pai, para te poupar, comprou-te um motor elétrico. O movimento sincopado do pedal foi repentinamente substituído por uma ligeira carícia do pé, como se fosse o “sostenuto” de um piano. Mas tu eras uma simples costureira e nada sabias de notas, pautas ou solfejos. No entanto, gostavas de trautear todas as canções que ouvias na rádio, em especial aquelas que mais facilmente te caíam no ouvido.

Por isso, na noite em que, tradicionalmente, os celtas acreditam que os seus mortos voltam a casa, pensei ainda mais em ti, e de como não te sentirias feliz com o que irias encontrar se pudesses voltar.

Sentada no auditório da Gulbenkian a ouvir o concerto “Mattutino de Morti”, matinas em honra dos fiéis defuntos, deixei-me levar pela força fúnebre do reportório, executado pelos mais variados instrumentos e interpretado por uma formação sinfónica de muitos cantores. E ouvi-te na igreja de Pinheiros, compenetrada ao lado do pai, a entoar mais um “Santo, Santo é o Senhor Deus do Universo”.

À entrada, deram-nos um folheto a pedir que, durante a atuação, respeitássemos o silêncio, bem como algumas dicas para controlarmos a tosse. Logo no cimo, uma epígrafe de Debussy: “A música é o silêncio entre as notas”. A partir dela, inspirei-me na composição de uma nova lápide, “A minha mãe é o silêncio entre duas datas: 1927 – 1989”, que fixa o teu fim e o princípio da última morada.

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