Opinião

Para o futuro líder conservador

Coragem! Que é bem precisa…

Confesso que quando fui convidado para escrever sobre este assunto, a minha primeira reação foi rejeitar. Pela simples razão que o meu entusiasmo, com a eleição para o líder do partido conservador federal, é tanto como ver os playoffs da NHL, depois dos Maple Leafs terem sido eliminados. Como já entenderam é praticamente zero. E digo isto como membro encartado do partido conservador.

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Ilustração do Parlamento em Ottawa. Crédito: DR

 

Primeiro, porque nunca entendi a pressa da estrutura do partido em livrar-se tão rapidamente do antigo líder Andrew Scheer.  Está certo que ele fez algumas burradas durante a última campanha eleitoral, mas poderia ter servido para ganhar experiência, aprender com os erros e fazer melhor para a próxima, e tenho a certeza que a culpa de perder não foi exclusiva dele.

Segundo, eu penso que os resultados das últimas eleições não foram assim tão maus para os conservadores. Se os leitores se lembram, nas eleições de  2015 quando o Partido Liberal ganhou com esmagadora maioria, e o Justin era considerado o Messias salvador da pátria , todos os entendidos da política previam uma dinastia liberal para as próximas décadas, ao ponto que praticamente ninguém queria a liderança do partido conservador, pois estava condenado a passar a vida na oposição. Grande surpresa em apenas quatro anos, os liberais foram reduzidos a um governo minoritário, os conservadores aumentaram os deputados de 95 para 121, e no voto popular ganharam, tendo 220 mil votos mais que os liberais. Com estes resultados, a única razão pela qual os conservadores não formaram governo, resume-se ao facto de os liberais não terem cumprido a promessa feita durante a campanha de 2015, de reformar o sistema eleitoral.

Eu penso que o partido, infelizmente, agiu um pouco como um clube desportivo – quando perde e não se pode despedir a equipa inteira, despede-se o treinador. Mas a lógica diz que quando se despede um “treinador”, é bom que se tenha em mente outro melhor para o substituir. E na minha opinião, neste momento, nenhum dos candidatos ao título será melhor do que aquele que foi forçado a sair.

Confesso que no início ainda fiquei um pouco entusiasmado, quando vi nomes como Pierre Poilievre e Rona Ambrose na lista de candidatos, mas um a um foram desistindo e agora praticamente vamos ter a coroação de Peter Mackay, uma reciclagem do Governo de Stephen Harper, já com uma certa bagagem, que depois de décadas na política federal com aspirações de primeiro-ministro nem se deu ao trabalho de aprender a falar francês, o que é essencial para um líder federal. Qualquer pessoa que acompanha política no Canadá sabe que nenhum partido conservador ganha uma maioria no parlamento, sem pelo menos eleger 20 a 25 deputados da província de Quebec, e eu tenho sérias dúvidas que o Peter MacKay vai conseguir esse feito.

Outra coisa que temos que admitir é que não é fácil ser líder do partido conservador, por várias razões. Em primeiro lugar, o próprio partido está dividido em duas facões. Uma são os chamados “progressive conservatives “ e a outra facão são os chamados “social conservatives”.

Estes grupos, embora parte do mesmo partido, tem agendas muito diferentes e é necessária muita diplomacia para agradar aos dois grupos. O único líder que durante o seu reinado soube de alguma forma controlar os dois lados foi Stephen Harper, e eis o segredo da sua longa duração na liderança do partido e primeiro-ministro.

A segunda razão – e talvez aquela que afasta muita gente boa e competente de querer liderar o partido conservador -, tem que ver com o facto do eleitorado canadiano ter alergia a eleger governos de direita. Um governo conservador, tanto a nível provincial como federal, só é eleito se os liberais forem apanhados em sucessivos casos de corrupção, e não houver outra alternativa. Reparem que num passado recente, nesta nossa província, depois do fracasso de David Peterson, ainda usamos a alternativa desastrosa Bob Rae, e todos sabemos o resultado.

Pior ainda, quando um governo conservador é eleito, no dia seguinte tanto os media como os suspeitos do costume começam a procurar defeitos e razões, legítimas ou não isso não interessa, o que é importante é convencer o eleitorado que os conservadores não têm compaixão, só governam para os ricos, e vão retirar todos os direitos  às mulheres e aos gays. Isto foi sistematicamente repetido pela oposição durante o tempo que o “lobo mau” Stephen Harper foi PM. E apesar de nada disso ter acontecido, ao fim de 10 anos a ladainha continuava a mesma. Quando não se tem argumentos, o mais fácil é acusar o adversário de racismo, homofobia e qualquer outra fobia que esteja na moda. A maioria dos canadianos, especialmente a comunicação social, só apontam os defeitos dos conservadores e as virtudes dos liberais.

Se duvidam disto eu deixo aqui alguns exemplos.  Depois de quase duas décadas, ainda hoje no Ontário se culpa o ex-premier Mike Harris por tudo o que de errado que acontece nesta província,  mas ninguém lhe deu crédito pelo facto de ele ter herdado uma província à porta da falência e ter conseguido levantar a economia do abismo, balançar as contas públicas e restaurar a dignidade e respeito desta província a nível nacional e internacional.

Brian Mulroney, culpado pelos liberais por dois grandes pecados que supostamente iriam afundar o país, GST e NAFTA. Ironicamente, depois dele, já houve décadas de domínio liberal e ainda nenhum governo cancelou o GST. E com respeito ao NAFTA, quando o maluco do Trump o ameaçou cancelar, o Governo atual quase morrendo de susto, demorou mais de um ano a renegociar, tiveram de pedir ajuda a líderes conservadores do passado, e o resultado foi um acordo muito pior do que aquele “mau” que Brian Mulroney tinha assinado. A realidade é que sucessivos governos liberais gozaram de estabilidade financeira devido a essas duas “más” decisões do Mr. Mulroney.

Vou acabar o meu raciocínio com uma pergunta: alguém acredita que o atual Governo de Justin Trudeau depois de todos os escândalos, incompetência e arrogância ainda estaria no poder se fosse o partido conservador? Não se esqueçam que uma ministra de Stephen Harper se demitiu por ter posto na conta do Governo um copo de sumo de laranja, no valor de 16 dólares.

Como conservador que sou, desejo o maior sucesso ao novo líder seja quem for, e muita coragem, que vai ser necessária. Depois da incompetência e falta de controlo financeiro deste Governo, agora agravado por esta pandemia, vai ser necessária gente competente e decisiva, pois vão haver decisões difíceis, mas essenciais para levantar de novo a economia deste país. Espero que o novo líder conservador tenha coragem para enfrentar os problemas que vêm aí. É que, pelos vistos, a começar pelo ministro das Finanças que acabou de se demitir, enfrentar problemas não está no ADN liberal. Quando tempos difíceis batem à porta mais vale ir apanhar sol para aquela vila esquecida no sul de França, e o Zé povinho que se lixe.

fernandorio_colaborador

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