Opinião

Palavras em viagem

Nenhuma palavra alcança o mundo, eu sei. Ainda assim, escrevo. Mia Couto, Abril 1984

Era uma decisão há muito adiada, como são todas aquelas que mexem com o nosso mundo interior por via dos muitos livros que lemos. Uns, companheiros de uma vida; outros, adquiridos por força das pesquisas que os trabalhos académicos exigiam; os mais recentes, para ir acompanhando o mercado editorial e a revelação dos novos autores e, por fim, um número razoável dos que se encontram na lista de espera para serem lidos. Não há escritório que comporte a acumulação de tanta literatura, se a esta acrescentar ainda os inúmeros dossiês que arquivam memórias de uma vida.

Esta semana teve de ser. Decidi entregar à Biblioteca Municipal parte desse meu património. Fui percorrendo, estante após estante, e selecionando aqueles de que me deveria “desfazer”. Será que é este o verbo certo? Não ficaria melhor “despedir”? Porque é disso que se trata, de uma despedida dos que comigo viveram, viajaram e foram testemunhas de tantos estados de alma. Invade-me uma hesitação enorme de cada vez que tenho de os meter nos sacos que organizei. Num misto de segurança e curiosidade vou folheando, um por um, porque recordo as vezes que lá deixei papéis a servirem de marcadores, incapaz, por norma, de dobrar o canto de uma página para assinalar onde ficara.

Encontrei tanta coisa esquecida! Uma rifa das festas do Concelho de 2003, um talão da reserva de um voo para Ponta Delgada, um postal em cortiça com motivos dos lenços dos namorados – enviado por amiga finlandesa -, um postal de natal de 1981, de uma Teresa, que hoje nem sei quem é, um cartão de vista muito velho de um tal Hilmar Zöhrer, diplomado em massagens medicinais que nunca fiz, um convite de casamento de um familiar para agosto de 1991, um recibo de 1977, comprovativo da entrega de um boletim de admissão ao concurso de professores provisórios e eventuais (era esta a designação), um horário do ano letivo de 1979/80, um bilhete de comboio para Coimbra datado de 1976 e por aqui me fico, porque o balde se vai enchendo de lixo que aviva outros tempos e as circunstâncias em que foram vividos.

Muitas outras coisas estão nas páginas que vou percorrendo: as reflexões que fui colocando nas margens – a suscitar interrogações sobre o que fora lido -, o porquê de algumas frases sublinhadas e até notas a sugerir ideias para futuros textos. Tem sido um exercício de muitas hesitações: pôr no saco e voltar a tirar. Passados instantes, regressar ao saco, mas sempre com uma dúvida atravessada: vai ou fica? A decisão tinha de ser feita à semelhança de muitas outras despedidas – voltar as costas e não olhar para trás. É a única forma de tornar o gesto definitivo.
Mas como desembaraçar-me do meu “Frei Luís de Sousa”, 5ª edição, de 1959, com notas e prefácio de Rodrigues Lapa? Rio-me com os sinónimos que coloquei por cima de certas palavras como mancebo, galeras, capricho, mortificada, brandões, tirania, precárias, agouros, prognósticos, prudência e tantas outras, ao mesmo tempo que me surpreendo com o facto de ser tão limitado o meu vocabulário naquela idade!

Este fica. Não porque, ao dá-lo, revele parte da minha ignorância lexical, mas porque continua a ser um documento vivo para os que tanto reclamam da pobreza vocabular dos jovens atuais. Tenho a certeza de que se o mostrar aos meus netos, eles se espantarão com a minha necessidade de recorrer ao dicionário para decifrar o significado de palavras tão conhecidas nos dias que correm.

Ainda não dei a tarefa por concluída, mas tenciono terminá-la antes da Páscoa: tempo de morte e ressurreição. Neste meu cenáculo privado, os que partem darão lugar à chegada de outros, como as línguas de fogo em dia de Pentecostes.

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