Opinião

Os direitos por linhas tortas

A notícia chegou-me através das notificações de telemóvel – “Morreu a mulher indiana vítima de violação, queimada a caminho do tribunal. Tinha 23 anos e ficou com 90% do corpo queimado”. Mais uma. Chocante e geradora de uma enorme revolta. A pergunta sai disparada, sem travões – como é possível? Como é possível isto ainda acontecer? Logo seguida de uma resposta em forma de pergunta – “ainda perguntas?”.

Este caso chegou por notificação, mas são milhares e milhares de mulheres que todos os dias sofrem com qualquer forma de abuso dos seus mais elementares direitos. E mais ainda são as que, não morrendo fisicamente, estão vivas sem viver – despojadas de vontade própria, de liberdade para decidir o seu caminho, proibidas de sentir, sem direito a exprimir opinião. Mulheres cheias de tristeza no olhar, com maus tratos onde por vezes dói mais – na alma.

Não! Não caiemos na tentação de atirar estes casos para sítios recônditos, numa tentativa desesperada de dar a ideia de que nós – os ocidentais – não somos assim. Não preciso de me esforçar muito para vos dizer – sim! Isto também acontece na nossa rua, no nosso país, aqui ao lado. Num estudo das Nações Unidas ficámos a saber que mais de 70% das mulheres de todo o mundo já sofreram ou irão sofrer algum tipo de violência nas suas vidas. Em Portugal são já mais de 500 as mulheres mortas vítimas de violência doméstica, nos últimos 14 anos. Só este ano, que agora está a terminar, morreram 29. E nestes números não estão contabilizadas as milhares que todos os dias são vítimas de continuados maus-tratos. No Canadá 83% das vítimas de abuso conjugal são mulheres, sendo que são elas as vítimas em 95% dos casos de homicídio, daí decorrentes, no Ontário. Sim! Aqui, mesmo ao nosso lado.

A luta das mulheres por direitos iguais mais não é que uma luta pelos mais básicos direitos humanos que, passados tantos anos, ainda continuam por se cumprir. E é, na minha convicção, uma luta interminável. Porque as notificações vão continuar a chegar ao meu telemóvel, mas principalmente porque a realidade vai muito além daquilo que nós conhecemos. E também porque é uma luta que implica algo tão profundo quanto uma mudança de mentalidades. Mas há sinais de que essa mudança está a acontecer. Passo a passo. Ainda há pouco, outra notícia – “Futebol e futsal feminino duplicam praticantes em Portugal, em dez anos”. Não quer dizer nada, dirão muitos, mas perdoem-me, na minha opinião isto diz muito – mostra-me uma sociedade em mudança.

Não tenhamos, no entanto, ilusões – estamos perante uma luta desigual também porque, do lado das mulheres há quem, por razões de ordem cultural e religiosa, se considere menor. Foram educadas assim. Sempre se sentiram assim e até acredito que achem natural serem tratadas como tal.

Há, no entanto, um caminho que foi sendo desbravado. Com esforço e sacrifício, mas também à custa de muita competência e determinação. As diferenças da sociedade de hoje são evidentes – mais mulheres com formação superior, mais mulheres a desempenhar funções de chefia, mais mulheres em lugares políticos relevantes. E mais homens assustados com a afirmação feminina. Não tenhamos ilusões, por mais modernos que queiram parecer, a maioria dos homens, no seu íntimo, ainda não consegue admitir como natural que uma mulher esteja hoje à frente da Comissão Europeia, uma outra seja presidente do Banco Central Europeu, que a Alemanha continue a ter uma “Dama de Ferro” e que a Finlândia tenha acabado de eleger a mais jovem mulher para primeira-ministra de um país. Nem mesmo sendo por demais evidente que, se estão nos cargos que estão, é graças apenas à sua extraordinária competência e capacidade.

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