Opinião

Os casos e as causas!

Numa Europa assolada por tempestades políticas de toda a natureza, nomeadamente por problemas não resolvidos ou mal resolvidos, destacam-se as convulsões sociais do último fim-de-semana na Catalunha, mais propriamente em Barcelona, ensombradas por uma forte violência juvenil, provavelmente orquestrada por organizações alheias aos desejos independentistas dos catalães, mas que produziram um efeito mediático capaz de nos interrogar sobre o que se passa nessa região do país vizinho.

Não é fácil, para um observador externo, aceitar a independência da Catalunha face ao Estado espanhol, mesmo que se admita que existe um legado histórico, uma língua própria e um conjunto de tradições e vivências, que actualmente proporcionam uma certa autonomia a esta região espanhola. No entanto, há que admitir igualmente que existe um forte sentimento independentista entre os cidadãos catalães e que esta situação não pode ser resolvida por decreto judicial, nem depender das muito próximas eleições espanholas. No passado recente da transição “pacífica” da ditadura franquista para uma democracia, institucionalizada por uma constituição que não foi referendada e por uma monarquia implicitamente imposta, podemos encontrar alguns dos elementos que justificam a atual circunstância em que se encontram os catalães e a falta de discussão pública sobre uma solução federativa para a Espanha. Mas, daí a aceitar, em 2019, a independência da Catalunha, é abrir uma caixa de pandora em que muitas outras regiões, espanholas ou não, possam convergir na mesma direção, destruindo os Estados tal como os conhecemos e dando abertura para todo o tipo de populismos oportunistas que, nessas condições, tornariam irreconhecível o mapa da Europa política e a sua capacidade de governação.

E porque isto não é apenas um problema espanhol, está a atestá-lo a confusão criada na Grã-Bretanha com o processo do “Brexit” e a ameaça da Escócia em querer um referendo sobre a sua independência do “império”, no caso de ser discriminada em consequência de um provável estatuto especial para a Irlanda do Norte, palco de um passado sangrento entre unionistas e nacionalistas e que, apesar da paz, mantém-se num mau estar latente. A alimentar toda esta novela britânica estão as traquinices do atual Primeiro-Ministro da Grã-Bretanha, Boris Johnson e todos os acólitos do “ard-Brexit”, perante uma opinião pública nacional cada vez mais interrogada sobre as reais consequências deste processo de saída da EU.

Mas, se fora dos muros deste “jardim à beira-mar plantado” a que deram o nome de Portugal, existem fatores de preocupação que externamente nos condicionam, o nosso país encontra-se num momento de “águas mornas”, sentidas como: a “fase de aquecimento”, antes da posse do governo; do arrumar das cadeiras presidenciais do PSD e do CDS; da definição da estratégia reivindicativa dos sindicatos, agora livres da anterior moderação do PCP; da pesquisa de soluções negociais do Bloco de Esquerda, sem bater com a porta ao governo e num estágio de exercícios de retórica parlamentar, a serem apresentados pelos novos e pequenos inquilinos da futura Assembleia da República.

No centro da previsível e habitual confusão que se instala no Parlamento, no início da cada legislatura, espero (??) mais uma vez que a atenção do governo e do vasto leque de oposições, se concentre no estado real do país e de tudo o que é possível fazer para melhorar a vida dos portugueses, não se perdendo tempo demais em debates estéreis.

Basta reler os recentes estudos sobre a situação da nossa população para encontrar razões para agir.

Em Portugal existem cerca de mil contribuintes com um rendimento de, pelo menos, cinco milhões de euros anuais e um património de mais de 25 milhões de euros. Não militando contra a existência de ricos, não posso deixar de referir que mais de metade dos rendimentos das famílias da capital do país vai para as rendas das casas, refletindo um abismo entre ricos e pobres.

Somos 10,2 milhões de cidadãos, mas para cada 153 idosos, apenas 100 são jovens. Somos um País envelhecido (em 2018, houve mais 25.980 mortes do que nascimentos em Portugal), em que a idade média para ter filhos situa-se nos 31,2 anos e 54,9% dos nascimentos verificam-se fora do casamento. Há que incentivar condições económicas e sociais para assegurar a constituição das famílias mais jovens e estimular-lhes rendimentos que lhes permitam aumentar a procriação, sob pena de estarmos em vias de desaparecimento.

Portugal é o país europeu com maior percentagem de pessoas entre os 25 e os 64 anos sem o ensino secundário ou superior (50,2%), mais do dobro da média da EU e a taxa de abandono escolar é a sétima mais alta da EU. Se queremos ser um País moderno e tecnologicamente competitivo, temos de inverter estes números.

Porque estamos cada vez mais velhos e com magros salários, os portugueses gastam 5,1% do rendimento das famílias com os cuidados de saúde, a sexta percentagem mais alta no contexto da União Europeia. É essencial aumentar os rendimentos das famílias, ajustar o preço dos medicamentos ao nível do poder de compra dos cidadãos, nomeadamente reformados e pensionistas, e resolver os problemas congénitos do nosso Serviço Nacional de Saúde.

Poderia continuar, se o espaço o permitisse, por várias páginas deste repositório de carências, mas se eu as conheço, os nossos políticos também o devem reconhecer. Só me resta desejar-lhes uma atenção especial às nossas necessidades urgentes e gastarem menos tempo em artifícios partidários!…

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