Opinião

Os caminhos da infância

Viajar sempre me deu um prazer enorme. Talvez a vastidão da África onde cresci tenha feito nascer em mim a vontade de querer mais mundo que, por condição, me estava vedado. 

Até à data, várias razões me fizeram viajar, desde que, com ano e meio, desembarquei no cais da emigração, com minha mãe e irmã, para ir ter com meu pai que partira sozinho. Desde a fruição pura de conhecer, às questões de trabalho e até os indesejáveis encontros com as más notícias que de repente nos chegam, tudo tem sido motivo para cruzar paralelos e meridianos do planisfério.  Por terra, mar ou ar, atravessei continentes e países, tendo com todos eles aprendido muito sobre a diversidade do planeta que habitamos. Após tantas experiências e uma vida já longa, pensava que nada me surpreenderia, mas há sempre uma “primeira vez”, o que faz de nós eternas crianças, pese embora a idade em que tal aconteça.

Esta minha última viagem, acabadinha de fazer, ganhou contornos completamente diferentes das anteriores. Pela primeira vez, alinhei num grupo familiar, que não o meu, constituído maioritariamente por irmãs, uma cunhada e uma sobrinha. Das dez mulheres, apenas duas (eu e outra que passei a conhecer) tinham uma relação mais estreita de amizade e cumplicidade com alguns elementos do grupo. 

A maioria delas já passara por esta experiência e, tendo em conta os laços familiares que lhes vêm do berço, conheciam bem aquilo a que, em linguagem popular, designamos por “feitio” umas das outras. Sem qualquer relação de pertença, deixei-me levar pela onda do convite, que tanto me podia reservar imponderáveis tempestades como a bonança que lhes sobrevém. Gostando eu de desafios, arrisquei.

Partilhamos tudo: hotel, quartos, visitas, passeios, refeições e, como é habitual, as compras, programa obrigatório de qualquer roteiro turístico. Em determinados países, como foi o caso deste, são feitas não só nas lojinhas tradicionais, mas também em grandes bazares, onde abundam as ruas estreitas percorridas por uma multidão que, de loja em loja, é confrontada com uma variedade de cores, texturas, cheiros e sabores, numa verdadeira ode aos sentidos.

Foi numa dessas ruas que, atraídas por aquilo que nos pareceu ser um pátio ajardinado, decidimos voltar à esquerda. “Esquerda, volver!” – como se diz em jargão militar. E estávamos certas! No meio, uma árvore; à volta, o verde brilhante da trepadeira forrava uma das paredes, onde se escondia uma fonte denunciada apenas pelo barulho da água a cair, enquanto a outra tinha várias prateleiras com vasos coloridos a lembrar o quintal de uma casa de família. 

Fizemos uma pausa na caminhada que começara logo pela manhã. De repente, e sem que nada o fizesse prever, aquele espaço fez soar as campainhas da memória de todas, e o que se seguiu foi mágico. Apesar de viverem em diferentes geografias, voltaram a encontrar-se nos caminhos da infância. Deixaram de ser as respeitáveis avós que, minutos antes, tinham andado a fazer compras para os netos e, lembrando Alice no País das Maravilhas, foi como se tivessem caído num buraco que as transformou. 

À minha frente, passaram a estar a Lu, a Tunga, a Cói, a Magda, a Bacu, a Xuxuca, a Dica, a dançar, a saltar, a cantar em danças de roda ou a jogar, na língua que lhes serve de código afetivo comum – o creoulo -, como se o tempo as tivesse feito regressar ao quintal da casa-mãe da ilha.

Filmei e fotografei para memória futura, mas tenho pena que este texto não possa transmitir a emoção paradoxal de estar tão longe e sentir a casa, apesar da voz do almuadem que do minarete convidava à oração. 

O retorno à infância consegue este milagre de transformar adultos em crianças para que estas, segundo o Corão, continuem a ser o ornamento da nossa viagem pela vida.

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