Opinião

O último pedido

Minha querida mãe

Tu e o pai sempre nos garantiram existir vida depois da morte; sempre disseram ser esta vida uma passagem, através da qual, após uma paragem pelo purgatório, nos esperava um final glorioso – o paraíso. Sim, o paraíso, porque, como praticantes temerários da fé católica, nunca o inferno fizera parte dos vossos horizontes.

Segundo as vossas crenças mais arreigadas, no céu, onde ambos se reuniram, estarão a assistir a tudo o que por cá se passa. O pai, como tantas vezes nos ensinara, estaria atento aos sinais que ninguém quisera ver. E acrescentaria que está tudo no Livro do Apocalipe, que ele invocava de cada vez que vaticinava o fim do mundo. E o pai tinha razão, tem sido o fim de um mundo tal como o conhecíamos.

Eu, que não herdei, mas sempre invejei a vossa fé, nunca tive as mesmas certezas. Por isso, me apetece conversar contigo, como se nada soubesses, e falar-te dos dias que estamos a viver. Confessar-te que estou em paz convosco e com todos os meus mais amados mortos, porque os acompanhei e deles me despedi com o secular e imperativo ritual com que se sela cada ciclo de vida. Precisamos dos nossos ritos, não só para ficarmos em paz, mas também para podermos desejar paz eterna aos que de nós se apartaram.

Em tempos de contágio, não é isso que tem acontecido. A expressão “peste grisalha” nunca fez tanto sentido como agora, transformados que fomos nos novos pestíferos deste século. Somos velhos, já o sabemos, mas o que mais nos aflige não é a consciência disso, mas concluir como um simples número passou a ser a fronteira do que se pode dar e receber no mundo dos afetos.

Lembro-me de nunca ter aceitado que tivesses ido embora tão cedo – repentinamente, sem queixas, sem sinais nem avisos prévios, num fechar de olhos a que nenhum de nós assistiu, naquele fim de tarde de maio, o mês em que te celebramos. Hoje, sou obrigada a reconhecer que já houve melhores tempos para morrer, por mais que me custe adjetivar o tempo da morte. Como seres táteis, precisamos da presença física, do olhar, do toque, para que o adeus não fique suspenso, mas seja ato consumado.

Tempos houve em que, na celebração do teu dia, eu fui filha e neta, numa trindade que juntou duas mães e duas filhas. Mais tarde, ambas mães, felicitávamo-nos uma à outra, até ao dia em que, órfã, passei a celebrar a tua ausência.

Se hoje te conto tudo isto é porque recebi a visita da minha filha, a tua primeira neta, que, na impossibilidade de passar o Dia da Mãe comigo, veio deixar-me um ramo de flores. Não nos pudemos tocar, não nos pudemos cumprimentar; olhámo-nos simplesmente com o que dos nossos rostos restava à mostra e, no quintal, trocámos conversa urgente, mas higienizada pela máscara que nos escondia os sorrisos.

Na hora de partir, eu refreava a vontade de lhe dar um abraço de despedida, suspenso em dois meses de contenção, de confinamento, e de uma espera a adivinhar-se cada vez mais distante. Foi quando, sem nada dizer, pensei num estratagema. Enquanto ela voltava o carro para a saída, fui rapidamente buscar um lençol.

Fora do carro, de pé, voltou-se para me acenar dois metros de um adeus. Nessa altura, cobri-me toda com o lençol, e disse-lhe que estava cansada de acenos, de não sentir dois braços a envolverem-me o corpo. E demos um forte abraço na clandestinidade da transgressão e do interdito. Porque me lembrei de ti, e de como o teu último pedido no leito do hospital me martelava a cabeça. Por entre os tubos que ainda te ligavam à vida, disseste:

– Dá-me um beijo, minha filha!

E foi o último.

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