Opinião

O Cheiro da Canela

O olfacto é uma vista estranha,
Evoca paisagens sentimentais por
um desenhar súbito do inconsciente.
Fernando Pessoa

Casas Contadas é o título de uma das obras de Leonor Xavier. Na narrativa, é através das casas habitadas ao longo da vida que a autora nos conta o seu percurso, em jeito de biografia. Conhecemos o aforismo “As paredes tem ouvidos” e as estrofes da letra do fado “De quem eu gosto, nem às paredes confesso”, em que ambos fazem referêcia às paredes, como se estas fossem testemunhas vivas de todos os momentos das nossas vidas, vividas entre quatro paredes, a metáfora perfeita para evocar a casa.

Se quisermos, as paredes não só tem ouvidos como ganham voz quando, através delas, rememoramos o que vivemos. Se deixamos pegadas nos espaços que habitamos, a verdade é que também nos deixamos marcar por eles, num sistema de trocas que a memória vai descodificando por “um desenhar súbito do inconsciente”, de cada vez que nos aproximamos deles. Os espaços onde vivemos, e porque lá vivemos, deixam de ser asséticos, contaminados que ficam com os sons, cores e odores que funcionam como campainhas da memória. Para acionar estas campainhas, em muito contribuem todos os pequenos registos que vamos colecionando, guardando, anotando como recordação dos episódios que nos marcaram.

Como dei conta em crónica anterior, o Prof. Josiah Blackmore esteve em Constância a dar duas conferências sobre o mar de Camões. Sendo esta a vila mais camoniana do país, não podia deixar de ter um Jardim-Horto dedicado ao poeta, onde estão representadas as espécies vegetais a que Camões faz referência em toda a sua obra: épica e lírica. No meio do jardim, altaneira e frondosa, destaca-se a árvore da canela, de cuja casca se extraem os paus de canela que, tanto podem ser consumidos assim, como, depois de moídos, nos dão o pó da tão cobiçada especiaria. Apesar de a canela provir do tronco, podemos também sentir-lhe o cheiro a partir das folhas secas. Basta que as apanhemos do chão e as trituremos entre os dedos, reduzindo-as a pedacinhos pequenos. Se depois os aproximarmos das narinas, de imediato estas acusam o odor da canela.

Face a esta descoberta, achamos que seria uma boa ideia o professor viajar até aos Estados Unidos com algumas destas folhas, que decidimos retirar do alto da árvore. Ora, a melhor forma de as transportar, de modo a que não fiquem todas amassadas, é acomodá-las entre as folhas de um livro, que um dia foi também árvore. Quem não se lembra de que era esta a técnica que usávamos para organizar os herbários exigidos nas aulas de botânica?

Por isso, quando chegamos a casa, tirei-as do carro e sugeri ao professor que as colocasse dentro de um livro. Foi buscar uma edição que lhe tinha sido oferecida, dois dias antes, por um admirador do seu trabalho. Quando mo entregou, perguntei:

– Coloco-as ao calhas ou tens preferência por alguma página?

– Boa pergunta – respondeu-me. – Olha… no canto IX, estância 14. Verifica, por favor!

Fui à procura da página e pasmei. Lá estava a menção à canela: “Leva pimenta ardente, que comprara/ A seca flor de Banda não ficou,/ A noz, e o negro cravo, que faz clara/ A nova ilha Maluco, com a canela,/ Com que Ceilão é rica, ilustre e bela. [Canto IX, est. 14].

Sei quanto o Professor Blackmore é um grande conhecedor da obra de Camões, mas do que eu não estava à espera era de uma memória tão certeira, que conseguisse identificar não só o Canto, mas ainda a estância, como se tivesse sido levado pelo cheiro da canela.

E o ramo da caneleira lá ficou prensado entre os odores da pimenta, da noz, do negro cravo e da canela, como marcador de uma viagem que o levará de regresso às índias ocidentais.

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