Opinião

No coração do tempo

Os livros eram apenas um tipo de recetáculo, em que guardávamos as coisas que tínhamos medo de perder. Ray Bradbury, Fahrenheit 451

A cidade da Póvoa de Varzim é banhada pelo mar. E o mar da Póvoa, como qualquer outro, tem marés que ora enchem ora vazam a orla costeira, de acordo com os efeitos das forças gravitacionais do Sol e da Lua. Nessa cadência, vemos e ouvimos o vaivém das ondas a desfazerem-se em rendilhados de espuma. Mas, em fevereiro, o mar da Póvoa tem mais qualquer coisa. São as Correntes que, ano após ano, se repetem no calendário daqueles que amam as palavras feitas papel, gesto, imagem ou música.

E vem gente de muitos lados, em romaria, para ver e ouvir a enchente dos que, em jeito de maré cheia, desembarcam no cais das escritas ibéricas. Se continuar a usar o mar como recurso estilístico, direi que fevereiro é mês de bueiro que, ao longo de vários dias, nos arrasta e atira para muitas e variadas mesas, debates, lançamentos de livros, filmes, exposições, concertos, reencontro ou descoberta de amigos, cumprimentos, abraços, conversas fugazes e outras noite dentro, num rodopio constante de quem nada quer perder. Não adianta resistir ou esbracejar, quando a força da corrente é tão avassaladora no entorpecimento dos sentidos!

E nunca nos cansamos de ouvir vozes que, a partir de um mote antecipadamente proposto, conseguem fazer abordagens sempre tão diferentes. E cedemos à tentação de comprar mais um livro, outro e ainda mais outro, numa adição que, de tão repetida, nos obriga a pensar que o nosso quotidiano é cada vez mais deficitário em tempo disponível para ler. Porque os livros reclamam espaço, mas também um tempo de serem lidos, evitando que a lista de espera ganhe o tamanho da eternidade.

Na hora de fazer a mala, regressamos com mais peso do que aquele que levamos e, quase sempre, feitos cabides, com sacos extra ao ombro, porque continuamos a acreditar no provérbio africano, que nos diz que o tempo deve sempre andar no nosso bolso. E de cada vez que virmos um leitor levar a mão ao bolso, já sabemos que vai à procura do cotão do tempo para acabar mais um capítulo de prosa ou iniciar o verso dum poema.

É assim todos os anos, uma semana previamente reservada na agenda, para que nada mais se sobreponha à minha prioridade maior – As Correntes d’escritas – que, na Póvoa, e à semelhança de excertos da Liberdade de Paul Eluard, estão por todo o lado: “no pão branco das manhãs, nos meus farrapos de azul, no charco sol bolorento, no lago da lua viva, nos campos e no horizonte, nas asas dos passarinhos, no moinho das sombras, no meu espelho e no meu quarto, na cama concha vazia”.

Dos 365 dias do ano, subtraio os exclusivamente dedicados aos livros que, como nos diz o autor citado na epígrafe, “em si mesmo nada tem de mágico”, porque a magia não está neles, mas no que eles nos dizem “em como nos apresentam uma única peça feita da costura de vários bocados do universo”, a que eu chamo texto. E cada texto é feito das sílabas que Eugénio de Andrade deseperadamente procurava: uma vogal, uma consoante, quase nada, mas que lhe fazia falta, porque só ele sabia a falta que lhe fazia.

O poeta Lorca, num belíssimo poema “A Lenda do tempo” diz-nos que ninguém pode fazer brotar sementes no coração do tempo. Escreveu-o quando “As correntes d’escritas” não haviam ainda sido inventadas. Fosse vivo, e perceberia como a primeira semente deu fruto ao ponto de se ter multiplicado por 21 edições, afirmando-se hoje como o maior certame literário de todo o país.

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