Opinião

“Nem-nem”! Não à escola e/ou trabalho

Na passada semana o Parlamento português envolveu-se numa acalorada discussão entre o governo e a oposição, a propósito de um projeto governamental que pretende acabar com os “chumbos” até ao 9° ano, no sistema educativo nacional. E a questão é de facto polémica, porque o governo apresentou o projeto como uma intenção, sem explicar como fazer para atingir tal objetivo.

A oposição, no seu entender e sem mais detalhes por parte dos autores da medida, considerou que o governo pretende passar administrativamente todos os alunos, com aproveitamento ou não, para se livrar das estatísticas que colocam Portugal, no conjunto dos países europeus, com um número extremamente excedentário de alunos repetentes, que se arrastam no ensino ano após ano, aumentando os custos deste Ministério. Para além disso, criticam esta intenção governamental, por prejudicar a formação escolar dos jovens diminuindo a qualidade final do seu aproveitamento, num país que pretende aumentar cada vez mais as aptidões dos seus jovens, para um futuro profissional equiparado ao dos  países que detêm maiores capacidades de desenvolvimento.

Claro que, nas atuais condições e incertezas em que a proposta foi colocada, poderíamos ainda especular sobre a revolta e desmotivação dos alunos que estudam e se aplicam para poder obter boas notas e passar nos exames, face aos outros que, por diversas razões pessoais e sociais, passariam a transitar de ano sem nenhum esforço.

Porque a contestação era forte, o ministro da Educação corrigiu as críticas da oposição, afirmando que a intenção não era essa, mas antes proporcionar um novo modelo de ensino escolar que permitisse uma solução equilibrada para mitigar o excesso de repetentes nas nossas escolas e a desistência dos alunos em continuar os estudos. Situação que poderia ter evitado se tivesse estudado convenientemente este dossier e apresentado a medida aos deputados de forma estruturada!

O problema em questão agrava-se quando os alunos, após derraparem vários anos nos estudos, acabam por desistir de estudar e não conseguem entrar no mercado de trabalho de forma consistente.

E a propósito dos que desistem de estudar e trabalhar, embora tenha vindo a diminuir a sua percentagem face à média europeia, Portugal tem ainda mais de 220 mil jovens “nem-nem”, ou seja, não estudam nem trabalham.

Também é verdade que esta nova geração de “millennials”, que se desenvolveu num ambiente de grandes avanços tecnológicos e facilidades materiais, proporcionadas pelos progenitores (como uma forma de compensar os filhos pelo dureza de vida que podem ter tido no passado) e pelos avanços sociais do sistema, marginalizando o trabalho braçal e prolongando a passagem à idade adulta na dependência dos pais, alterou muitos dos pressupostos das gerações anteriores, modificando a atitude destes jovens consumidores dos domínios virtuais, face ao futuro que pretendem para si e ao sistema de interação social em que pretendem viver.

Embora este seja um fenómeno eminentemente urbano e não justificativo de todas as razões que conduzem os jovens a abandonar os estudos e a não trabalhar, nem englobando todos os casos de abandono escolar, os “nem-nem” não são apenas um caso português. Segundo um estudo feito pela OCDE, numa lista de 31 países pertencentes a esta organização, um em cada sete jovens, dos 15 aos 29 anos, não estuda nem trabalha.

Assim, e considerando as assimetrias sociais e culturais existentes no nosso país, onde se destacam as diferentes condições sociais dos jovens, o universo de trabalho precário à sua disposição, ou a cultura “facilitista” que os educou, uma modalidade de ensino que não tenha em conta essa diversidade e o longo caminho de aproximação dos níveis de aprendizagem de qualidade e que se centre apenas na diminuição das estatísticas de abandono escolar acabará por criar problemas maiores nestas novas gerações, quando atingirem a idade adulta e assumirem responsabilidades.

Não há milagres nem visões imediatistas para resolver esta questão do abandono escolar, sem pesar todas as suas condicionantes, embora haja quem já tenha sugerido a obrigatoriedade de um serviço cívico para os jovens “nem-nem” e para os que se “portam mal” nos estudos, enquanto penalização. Uma espécie de castigo para os “preguiçosos”, sem avaliar o motivo da “preguiça”!…

Na generalidade não sou contra a instauração de um serviço comunitário para os jovens, mas desde que ele faça parte integrante do sistema de ensino e propicie aos mesmos o conhecimento da pluralidade do mundo do trabalho nacional e os coloque em confronto com realidades que desconhecem. Um sistema deste tipo, bem organizado (!!!), permitiria aos jovens um maior enriquecimento experiencial e uma melhor capacidade nas escolhas para o seu futuro, resultado de uma interação real  e não virtual com o país onde vivem.

Julgo, no entanto, que tal projeto não seria politicamente aceitável para quem considera que tudo tem de ser resolvido no período de uma legislatura. Eleições “oblige”!

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