Opinião

Nada será como dantes?…

Durante a atual fase em que se encontra a pandemia provocada pela Covid-19, temos vindo a escutar as mais variadas opiniões sobre como será a nossa vida após o desaparecimento desta crise pandémica.

Uma parte substancial dessas apreciações afirma que, após o desaparecimento deste surto viral, nada será como dantes! No entanto, as dúvidas suscitadas por essas opiniões são tão vastas quanto são as afirmações que determinam o fim desta epidemia. E estas opiniões são ainda mais controversas quando se percebe que a esmagadora maioria da opinião pública se manifesta ansiosa por voltar à situação da vida normal, anterior à Covid-19, ou seja, tudo como dantes.

De forma geral sintetizada, reconhece-se que esta crise tem tido implicações sociais e económicas profundas, não apenas provocadas pelas mortes e infeções que continua a proporcionar, como igualmente pela diminuição dos meios de subsistência dos mais vulneráveis, a sua empregabilidade, a exploração de novas técnicas de trabalho e em todas as áreas envolvidas pelas medidas de afastamento social e comportamental a que as pessoas têm sido sujeitas, com custos que atingiram proporções inabituais.

No quadro das alterações ambientais com que o mundo está confrontado, também não pode deixar de ser sublinhada a melhoria das condições do ambiente na Terra, face à paragem de muitas indústrias e veículos poluidores, que esta crise tem proporcionado, através do confinamento imposto às populações como medida preventiva.

No contexto político propriamente dito, para além da pluralidade de decisões dos diversos Estados, a propósito de uma mesma crise, não se verificaram (até agora) transformações dos quadros institucionais, para além das tendências que já se vinham a considerar anteriormente à crise.

Imaginando que esta pandemia “terminará um dia”, poderemos configurar a existência de diferentes cenários tipificados, com base numa leitura da atual situação social, económica, ambiental e política mundial, sobretudo nos países com os quais temos relações mais próximas e estabelecer (pelo menos e de forma simplista, senão abusiva) duas ou três hipóteses de desfecho pós-crise:

Ou a dimensão das alterações provocadas na forma como encaramos a nossa vida foram tão profundas durante esta crise pandémica, tendo colocado em ruínas todo o sistema de valores materiais em que vivemos, obrigando-nos a uma reconversão dos nossos habituais ideais de felicidade e bem-estar, acompanhados pela imperiosa necessidade de proteção da vida, em termos globais e da manifesta urgência de preservação da natureza e da saúde do planeta e seus habitantes, conduzindo todas as esferas do poder económico e político a uma reflexão e mobilização geral de todos os nossos recursos humanos e materiais, em favor da construção da dinâmica de uma nova via.

Ou, mesmo que as alterações a que antes fiz referência se mantenham graves e com consequências a todos os níveis, os poderes mundiais instituídos não estarão dispostos a alterar os pressupostos fundamentais do nosso atual sistema económico, social e ambiental, limitando-se a aplicar algumas medidas excecionais, enquanto garantes da estabilidade económica e sanitária essencial, aproveitando alguns benefícios das formas de trabalho que esta crise gerou, mas mantendo a atual figura do nosso sistema de valor criativo e distributivo, criando estruturas de rentabilidade económica mais resistentes aos efeitos deste tipo de catástrofes e mantendo uma atitude expectável face ao desenvolvimento de novas indústrias que melhorem o ambiente;

Ou tudo ficará na mesma, resultante da consideração de que os resultados desta crise profunda nada mais são do que um episódio repetido na história dos povos; que a adaptação às catástrofes cíclicas que nos afetam e às suas consequências económico-sociais pertencem ao domínio da inevitabilidade e são um imperativo de resistência dos povos; que a sociedade que construímos, mesmo sendo imperfeita e incapaz de suster crises como esta, é aquela que mais se ajusta às características do ser humano civilizado e que basta garantir alguma atenção ao sistema sanitário dos povos, minimizando os efeitos destes fenómenos, para que tudo volte ao normal.

Claro que estas meras hipóteses caricaturais, simples e reducionistas, não deixando de suscitar alguns sorrisos críticos, permanecem todas associadas a uma eventual crise socioeconómica dramática, que possa acontecer no pós-Covid-19, consequência das alterações gravosamente operadas nos sistemas sociais e às respostas que partes das sociedades ocidentais estariam dispostas, ou não, a aceitar. No entanto, a interseção entre todos estes fatores relacionados com a atual crise, aqui expostos em evidência isolada, pode produzir outros acontecimentos distintos de natureza social, económica, política e ambiental que, ligados a outras debilidades da atual ordem internacional, podem gerar outras situações imprevisíveis, senão mais gravosas.

Razão pela qual a afirmação: “nada será como dantes”, peca por defeito ou por excesso, mas, e sobretudo, permanece carregada de “ses”!

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