Opinião

Muito prazer em conhecê-lo

O meu avô diz que um cepo é uma árvore com a memória a descoberto. - Tina Vallès, A Memória da Árvore

Uma imagem da “cartunista” polaca Izabela Kowalska-Wieczorek cobre-me o corpo. Com o título, que me foi dado pelas três fadas que apadrinharam o meu crescimento, ganhei um nome no meu registo de nascimento. Estou agora pronto para sair à rua, sentir a curiosidade dos vossos olhares e o calor do toque das vossas mãos.

Livro a ser lançado no próximo dia 27, às 17 h, nos jardins do Palácio de Fronteira. Foto:DR

Sob esta roupagem, escondo palavras de cinquenta e oito vozes que ditaram a minha existência, dada a conhecer no próximo dia 27, às 17 h, nos jardins do Palácio de Fronteira. Até lá, é chegado o momento de me apresentar, e dar a conhecer um pouco mais de mim, começando pela Nota de Abertura, que cumpre o papel de cartão de visita.

“Quando somos crianças, contamos os anos pelos dedos das nossas mãos, até ao dia em que estes deixam de ser uma unidade de medida do tempo. A idade passa, depois, a ser um traço por cada dia que acrescentamos ao nosso viver quotidiano. Sem sabemos ler nem escrever o futuro, riscamos o presente com rotinas, aprendidas no seio da família, para depois as alargarmos a outros núcleos – amigos, colegas e conhecidos – seguindo os passos dos nossos pais e avós.

Na partilha gregária de vivências comuns, fomos envelhecendo, como parte de uma geração que tem beneficiado do aumento do índice de longevidade traduzido numa cada vez maior qualidade de vida. Quando celebrávamos a possibilidade de, através do envelhecimento ativo, acrescentarmos mais vida aos anos, surge uma pandemia que nos cataloga como grupo de risco, ditando um confinamento que obriga ao corte com todos os afetos intergeracionais.

E os avós deixaram de poder cuidar dos netos e os netos de receber o carinho dos avós. Um vazio preenchido com as mais diversas aplicações que as tecnologias colocaram à nossa disposição, mas que nunca conseguiram substituir a canção de ninar, o aconchego de um colo, a ternura de um abraço ou qualquer outro mimo que só a presença física pode dar.

Os netos interrogavam-se sobre esta repentina ausência que tão presente fora, até então, nas suas vidas; os avós, a quem o convívio foi negado, sentiram-se vítimas de um roubo. Roubo de um tempo de cumplicidades e intimidades que ficariam por viver e deixariam de aumentar o património de memórias construídas nesta ponte de afetos entre avós e netos.

E porque confinamento foi sinónimo de isolamento, este era o tempo ideal para refletirmos sobre os danos que estas ruturas afetivas causaram a muitos avós que, durante meses, se viram privados da companhia dos netos. A melhor maneira de os homenagear seria, através de um conjunto de narrativas, recordar a forma como os avós – presentes ou ausentes – marcaram as vidas de todos nós.

A rápida recetividade e incondicional generosidade dos que foram convidados a participar permitiram reunir, em tempo recorde, um conjunto de textos que, em nossa opinião, mereciam ser publicados. Assim nasceu esta coletânea com testemunhos de autores de diferentes origens, ocupações, idades e países, mas unidos pela memória que cada um tem de seus avós, que pode ser recordada nesta galeria de retratos, emoldurados no que significou para eles ser neto ou neta, tanto em Portugal como em outros pontos do globo.

Para além da intensidade dos laços e nós dos afetos, estes textos dão-nos também retalhos de geografias, tradições nacionais e locais, épocas e maneiras de ser e de estar no espaço e no tempo. São, por isso, histórias que se completam no conteúdo e no prazer da partilha”.

Depois de me lerem, espero que possam dizer: “Tive muito prazer em conhecê-lo!”

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