Opinião

Memórias de papel

Por todo o lado vemos anunciar o “Regresso às Aulas”, publicitado numa linguagem apelativa à compra dos mais variados materiais escolares. Além dos manuais, vemos montras e bancas a encherem-se de acessórios – estojos, mochilas, fatos de treino, ténis – destinados a satisfazer gostos que podem ir do mais sóbrio ao mais sofisticado, servindo de bitola para distinguir classes sociais.

Enquanto estudante, não fui submetida a tanta oferta como aquela que agora existe, mas a verdade é que, em qualquer época, houve sempre um ou outro material que funcionou como marca identitária para diferenciar a relação de pertença a este ou àquele grupo social. Iniciei e completei a minha escolaridade até ao antigo 5º ano do Liceu, no Colégio de Nossa Senhora da Conceição, em Benguela, da ordem das Doroteias. Apesar de provir de uma família humilde, meu pai teve a preocupação de, como primogénita, me dar uma educação esmerada, matriculando-me num colégio frequentado pelas filhas das elites da cidade e dos fazendeiros dos arredores. A vida no colégio pautava-se pela qualidade do ensino ministrado e um conjunto de regras que preparavam para nos sabermos comportar em sociedade.

O regresso às aulas, depois de uma longa temporada de férias de três meses, traz-me memórias que nenhum estudante de hoje guardará. Uma delas era a tarefa a que nos entregávamos como um ritual anualmente a cumprir – forrar os livros e os cadernos de cada disciplina. Em finais de agosto ou inícios de setembro, guardávamos uma semana para isso. Era o tempo, por excelência, em que se dava um especial uso à mesa da sala de jantar, raramente usada, porque comíamos diariamente na cozinha.

Abria o rolo colorido de papel e, para que ele se mativesse estendido e não voltasse teimosamente ao lugar inicial, colocava algum objeto pesado no canto superior e no inferior. Depois, punha o livro ou o caderno em cima do papel, rodava para um lado e para o outro a fim de calcular a medida aproximada, tendo em conta as margens para as dobras laterais e de topo, sem esquecer a espessura da lombada. Os que tinham lombada mais alta eram os dicionários, mas esses, uma vez forrados, forrados ficavam até ao final do percurso escolar. Era raro haver necessidade de os sujeitar a uma segunda operação.

Alguém se lembra ainda de como se forravam os livros? Se quiséssemos que o trabalho ficasse bem feito e os remates perfeitos, exigia-se alguma destreza na operação de corte e dobragem, com particular atenção para os remates da lombada que, metidos para dentro, requeriam um corte enviesado.

Seguiam-se as etiquetas autocolantes: uma retangular a meio a identificar a disciplina e o nome do manual; outra, bem mais estreita, no canto inferior direito com o nosso nome.

Na aquisição dos manuais éramos todos iguais, porque o livro único perpetuava-se de geração para geração, havendo casos em que chegara a passar de pais para filhos. Por via do papel, estojos, canetas, lápis, borrachas e demais acessórios, fazia-se a diferenciação social. Assim que se colocava um livro sobre a carteira, o papel que o forrava era como um fato, denunciando de imediato o poder aquisitivo de quem o comprara. Por incrível que hoje possa parecer era, de facto, assim. É verdade que a textura do papel dos rolos apresentava alguma uniformidade, mas distinguiam-se aqueles mais fininhos de outros com uma finalização encerada que lhes dava um acabamento diferente, fossem de uma só cor ou estampados, que tanto podiam recorrer a formas geométricas como à reprodução de elementos vegetais ou animais.

Não olho para o passado com aquela saudade doentia, tantas vezes expressa por alguns dos meus colegas. No entanto, admito que quando vejo um cartaz a anunciar o Regresso às Aulas é o cheiro a papel que forra as minhas memórias de estudante.


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