Opinião

MARX: “trabalhadores do mundo” … (separai-vos)!

Neste confinamento forçado em que nos encontramos, sem podermos prever o seu fim que, esperamos, seja antes de considerarmos a nossa casa uma prisão e passarmos a um estado psicológico depressivo, com todas as suas consequências adicionais à crise do Covid-19, cada um entretém-se com o que pode.

Um dos passatempos mais utilizados, durante esta fase da nossa vida limitada à quarentena e se não quisermos ser detidos pelas forças policiais ao serviço do decretado Estado de Sítio em Portugal, é o contacto via net com os nossos amigos e familiares, para além das orelhas coladas aos noticiários informativos.

Um dos meus amigos enviou-me um e-mail com uma panóplia de divertidas expressões alteradas de conhecidos filósofos e adaptadas ao atual confinamento, entre as quais aquela que uso em título e que me proporcionou alguma reflexão.

Se Karl Marx e Friedrich Engels, autores do “Manifesto Comunista” publicado em 1848, vivessem no atual momento que estamos a viver, atrever-se-iam a considerar os problemas das sociedades capitalistas mundiais como uma consequência da dialética entre as infra-estruturas e as superestruturas das respetivas sociedades e a apelar a: “trabalhadores do mundo, uni-vos…” e à luta de classes, enquanto forma de resolver muitos dos atuais problemas das nossas sociedades?

Claro que estou a gracejar sobre as limitações a que agora estamos sujeitos e à nossa própria vontade de protegermos a humanidade, sejam eles trabalhadores ou patrões.

Embora tenha sido um dos promotores de uma ideologia de caráter permanente a aplicar-se às sociedades capitalistas, Marx não faria tal discurso nos dias de hoje, não apenas pelos erros há muito detetados na aplicação do seu pensamento às sociedades modernas, mas porque e neste caso, o maior inimigo dos trabalhadores não são os ricos, mas sim o Covid-19!

No entanto, se esta crise epidémica continuar por tempo indeterminado, afetando os recursos económicos de todos, mas com principal incidência nas camadas trabalhadoras, como reagirão os ricos e as suas respetivas instituições?

No passado recente e por motivos diferentes, os trabalhadores portugueses em geral, lembram-se das dificuldades por que passaram e ainda passam, para salvar o nosso sistema bancário falido, pagando para sustentar a existência de instituições bancárias, acusadas de práticas fraudulentas. E hoje, apenas a dias da disseminação deste novo vírus em território português, cujas consequências económicas atuais ainda não colocaram em causa, segundo o Ministro das Finanças, o Orçamento Geral do Estado para 2020, feito antes do aparecimento do Covid-19, o que dizem os banqueiros? “O setor bancário nacional está absolutamente empenhado e disponível para dar o seu apoio às empresas e à economia portuguesa”. Como se propõem ajudar a economia portuguesa, as famílias e as empresas, a superar as suas dificuldades?

CGD, BPI, Novo Banco, Santander, Montepio e Millennium BCP já manifestaram o que vão “dar”: créditos, créditos com prazos de pagamento estendidos, créditos a juros (claro) e um abrandar das suas comissões dos serviços (que julgávamos terem tendência a acabar com a generalização da utilização da internet, por parte dos consumidores). Quem não tiver garantias não terá acesso aos créditos a pagar mais tarde e quem já tiver outros empréstimos bancários terá dificuldades em obtê-los. E assim se propõem ressarcir os portugueses do dinheiro que lhes demos, quando agora vão buscar o dinheiro que emprestam ao Banco Central Europeu, a taxas negativas, e emprestam aos clientes a taxas superiores!

O que nos propõe a Comissão Europeia?

Para além de promessas de milhões, a aguardar o difícil consenso dos 27 Estados membros, alterou o Pacto de Estabilidade, permitindo que se ultrapasse os célebres 3% do défice do Estado, sendo que tal ultrapassagem implica aumentar a dívida do país e o consequente aumento do preço do dinheiro que o país precise e aquele que ainda tem de pagar da dívida anterior (tempo da Troika), que ainda não pagámos! A Europa não consegue reagir com um plano global e coordenado, ocupada que está com os vários egoísmos nacionais e o risco de colapsar a “União”.

E os patrões portugueses como reagem?

Com grande parte da estrutura económica parada, as empresas permanecem ainda com as ajudas do Estado, através da utilização do “lay-off”, decretado pelo Governo e com um custo ao Estado de mil milhões de euros por mês, as empresas pagando 33% e os trabalhadores a receberem 1/3 do seu salário, na expetativa de manterem o emprego. No entanto, se a situação se prolongar por vários meses, sem laboração, sem vendas e dispondo dos créditos a juros que, se obtidos, estão sujeitos a uma embrulhada burocrática, levam os empresários a interrogarem-se sobre se vale a pena correr o risco de se manterem sem atividade, mais endividados, com as tesourarias asfixiadas e sem saberem como e quando poderão recuperar. O resultado vai ser (penso) alimentar um exército de desempregados no nosso país. “Quando o mar bate na rocha…”!

Como a situação, com mais ou menos intensidade, atinge todos os países, as convulsões sociais provocadas pelo mundo do trabalho vão ser progressivamente mais violentas e, naturalmente, proporcionar que muitos voltem a içar a bandeira do: “Trabalhadores do mundo, uni-vos…!”

Ninguém tem a certeza de como esta crise vai acabar. Este vírus, mesmo que venha a desaparecer, vai modificar profundamente a vida da atual geração. Hoje, a prioridade é salvá-la. Amanhã, é adaptá-la às circunstâncias!…

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