Luís Barreira

O lado cinzento da nossa história!…

O lado cinzento da nossa história-portugal-mileniostadium

De vez em quando a memória histórica de alguns portugueses é abalada por alguns acontecimentos vindos a público, que despertam as mais diversas críticas, entre aqueles que se manifestam a favor ou contra o despertar de algumas realidades da nossa história.

Foi o caso da realização de um museu da escravatura ou das descobertas; a manutenção ou a destruição dos floridos brasões do império em Lisboa e, mais recentemente, a evocação pela sua morte, do tenente-coronel Marcelino da Mata, herói para uns e sanguinário para outros, no seu comportamento durante a guerra colonial na Guiné.

Confesso que detesto todos aqueles que querem “limpar” da história dos povos todos os acontecimentos que, na atualidade, possam ser condenáveis, da mesma maneira que abomino todos os outros que fazem desses acontecimentos a apologia do regresso ao passado! A vida de uma nação não pode estar sujeita a um qualquer revisionismo histórico, nem à sua regressão contra a vontade dos novos tempos. Ela é uma sucessão de ocorrências, produzidas pela influência de fatores internos e externos marcados no tempo, que não têm de ser diabolizados, nem divinizados, mas sim recordados, enquanto processo do desenvolvimento histórico de uma sociedade.

A história dos quase nove séculos de Portugal, tem imensos episódios que, à luz dos nossos atuais conhecimentos e dos princípios morais e éticos que hoje assumimos, nos parecem inverosímeis e destituídos de qualquer consideração positiva, da mesma maneira que tantos outros ainda hoje nos realçam valores que apoiamos. A nossa história, como a de tantos outros povos é constituída por um todo e, como tal, deve ser ensinada e aprendida, sem quaisquer preconceitos ideológicos ou preceitos morais.

Portugal foi um império desde o século XV (com a conquista de Ceuta em 1415) até ao século XX (1999, devolução da soberania de Macau à China), foi grande e não há como contradizê-lo! Esse império expandia-se por territórios em África, Ásia, Médio Oriente e América, com naturais vantagens comerciais para o país e a submissão dos povos naturais dessas regiões aos governos de Portugal, territórios que hoje fazem parte de 53 países diferentes. Essa é também a história dos nossos grandes navegadores, do notável conhecimento sobre a geografia do planeta, da descoberta da existência de novos povos e o início daquilo a que chamamos atualmente o grande mercado global.

Porquê evitar dizê-lo, ensiná-lo e compreendê-lo? Foi, à época, um extraordinário percurso histórico, com todo o contraditório que o período das descobertas possa encerrar!

Em Portugal o comércio de escravos começa a ser massificado a partir do século XV, acompanhando o crescimento do império e terminará em meados do século XIX, embora o Marquês de Pombal tenha impedido a sua importação para o país (séc. XVIII), mas não estendendo essa proibição às colónias.  Embora Portugal tivesse sido pioneiro na abolição da escravatura, até 1869, data em que foi publicado o decreto que abolia a escravatura em todo o território português, Portugal terá traficado cerca de 11 milhões de pessoas.

Marcados com um ferro em brasa na testa, com o nome do seu proprietário, ou numa argola de ferro que traziam ao pescoço, o escravo era considerado um objeto comerciável, utilizado nos trabalhos mais desgastantes e vivendo nas condições mais miseráveis.

Devemos orgulhar-nos disso? Claro que não! Devemos apagar cinco séculos da nossa história para não sermos hoje apelidados de seres abomináveis? Obviamente que não! Devemos sim lembrar-nos do que foi esse período para evitarmos que se instale qualquer modalidade “Orwelliana” de escravatura moderna nas nossas sociedades.

Sob um regime ditatorial, Portugal teve uma guerra colonial em Angola, Moçambique e Guiné (1961/1974), tendo nela participado centenas de milhares de portugueses que, na sua imensa maioria, foram obrigados a fazê-lo e outros aceitando o cumprimento de um dever acatado.

Com mais de 9.000 mortos e largas dezenas de milhares de feridos e estropiados para o resto da vida, os portugueses participaram durante 13 anos num conflito que, desde o seu início se julgava perdido, na defesa destas parcelas do império, consideradas pelo regime ditatorial vigente, como parte integrante da nossa pátria. Será suposto agora considerar que esses homens eram sanguinários, fascistas, figuras sinistras ou criminosos de guerra (como agora, por ocasião da sua morte, alguém apelidou Marcelino da Mata)? Evidentemente que não! Devem os sobreviventes dessa guerra, (muitos felizmente ainda vivos) envergonharem-se perante os seus filhos, netos e a atual sociedade portuguesa, por terem participado há cerca de 60 anos, num brutal conflito em que inevitavelmente “ou matas ou morres”, ou porque considerarem estar a cumprir o seu dever? Claro que não!

Os acontecimentos que fazem parte da história de uma nação, bem como os comportamentos do seu povo, têm de ser considerados no contexto da sua época factual, perante os condicionalismos que imperavam e o sistema de valores sociais existente à data dos mesmos. Observar e comentar o passado histórico de um país, com base numa escala de valores e princípios atuais, sem ter em consideração as circunstâncias que lhe deram origem e que delimitaram o seu desenvolvimento, é um erro crasso que, infelizmente ainda perdura nos nossos dias. Não devemos desprezarmo-nos ou orgulharmo-nos de alguns episódios da nossa história que, aos nossos dias, nos parecem censuráveis.

Os bons e os maus momentos do passado formam um todo que forjou a nossa identidade e saber ler a nossa história é, simplesmente, compreender o acontecido!

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