Luís Barreira

Novo aeroporto de Lisboa?… “Jamais, Jamais”!

Já não é a primeira vez que me saltam os parafusos de contenção da minha irritação com as cretinices de alguns dos nossos decisores, embora a minha idade e experiência de vida tenha vindo a alargar a minha tolerância para com tais situações em Portugal.

Há mais de 50 anos que a população da capital aguarda a construção de um novo aeroporto para Lisboa, agora chamado Humberto Delgado, reduzindo o trafego aéreo sobre a cidade, tendo em consideração os elevados níveis de decibéis produzidos pelos aviões, a poluição produzida pelos mesmos e o risco de um dia haver um terrível acidente sobre as habitações e habitantes de um aeroporto que se encontra confinado a Lisboa e que ameaçava de exaustão em 2019, com um volume de passageiros de mais de 31 milhões de pessoas.

Após os últimos longos anos e meses de discussão acesa sobre se o novo aeroporto deveria ficar no Montijo, Alcochete ou na Ota, o Governo decidiu-se pelo Montijo, tendo-se comprometido com a ANA-Aeroportos de Portugal S.A. a que esta financiasse o novo aeroporto e tendo sido realizado o projeto de instalação, análises sobre os impactos ambientais, várias apreciações técnicas de aeronáutica e vias de acesso, para além do natural desenvolvimento do parque habitacional e turístico do Montijo, que esta decisão acabou por provocar.

 

milenio stadium - aeroporto montijo

 

Para o público em geral, tudo parecia decorrer dentro dos trâmites previsíveis e até a infeliz pandemia que nos afeta tinha dado uma ajuda, reduzindo drasticamente o fluxo de passageiros no aeroporto de Lisboa, evitando a saturação deste e permitindo entretanto que decorressem as obras de construção de um novo aeroporto.

Para nós, simples espectadores desta novela, tudo parecia bem até que, na passada semana, rebentou mais uma “bronca”! A ANAC (Autoridade Nacional da Aviação Civil) recusou a viabilidade deste aeroporto no Montijo, porque duas das cinco autarquias que se encontram no perímetro deste novo aeroporto (Moita e Seixal), deram parecer negativo à sua localização e, como existe uma lei de 2010 a estabelecer que o projeto necessita do apoio unânime de todas as autarquias, tudo ficou mais uma vez virado do avesso!

Foi então que, na minha memória, ecoaram as palavras do antigo ministro das Obras Públicas, Mário Lino (2005/2009), que defendia acerrimamente o novo aeroporto na Ota, considerando que fazê-lo naquele “deserto” (sic) do Montijo ou Alcochete, afirmou: “Jamais,…Jamais! (em francês)!

Voltando à “estaca zero’ o Governo decidiu atalhar caminho, mudando a Lei que dá poder de veto às autarquias neste tipo de situações e submeter todo este processo a uma Avaliação Ambiental Estratégica, prometendo adotar uma das três soluções que vier a ser aprovada, tendo proposto: “a atual solução dual, em que o Aeroporto Humberto Delgado terá o estatuto de aeroporto principal e o Aeroporto do Montijo o de complementar; uma solução dual alternativa, em que o Aeroporto do Montijo adquirirá, progressivamente, o estatuto de aeroporto principal e o Aeroporto Humberto Delgado o de complementar e, por último, a construção do novo aeroporto em Alcochete”.

Não sei (e porventura já nem quero saber), qual vai ser a solução para este imbróglio, mas prevejo que, seja ela qual for, vai dar discussão para mais alguns meses ou anos, se for: Alcochete (no atual campo de tiro) o escolhido, a solução é mais cara que a do Montijo (totalmente financiada pela ANA) e será o erário público (nossos bolsos…) a pagar a diferença; se for o Montijo, sem intervenção de investimento estatal, vai ter de se haver com a contestação da Associação para a Defesa das Aves da Holanda (???) criando uma nova rota para os pássaros maçarico-de-bico-direito, uma espécie muito acarinhada pelos holandeses (espero que não seja na frigideira…) e se nenhuma destas soluções for aprovada ainda deve aparecer alguém com um projeto para as Berlengas!…

Além do sucessivo adiamento que esta situação tem sido alvo, o que é mais difícil de suportar é a forma como os nossos decisores políticos tratam este tipo de questões. Antes de se gastar tempo e dinheiro em projetos, estudos, apreciações de vária natureza e criar expectativas nas populações e nos agentes económicos da zona, não seria mais equilibrado verificar antecipadamente se todas as autarquias estariam de acordo? Reconhecendo que a aplicação da Lei, que agora é vista como indesejável pelo PS e o PSD, porque não pensaram em alterá-la antes de iniciarem todo este processo? Ao fazê-lo agora deram um muito mau exemplo de ética republicana (ajustando as leis a um seu interesse imediato) e a todos os que, por motivos semelhantes, vierem a reivindicar fazer o mesmo. Temos de parar de querer construir as casas a partir dos telhados, antes que alguém exasperado comece a partir a loiça!…

Infelizmente que, em consequência da pandemia provocada pela Covid-19 a afetar todo o mundo, a diminuição do fluxo turístico quase parou o aeroporto de Lisboa, não se prevendo, igualmente para este ano, um relançamento considerável da sua atividade. Mas espero que, seja qual for a solução encontrada entre Montijo e Alcochete, ela não dure mais 50 anos a ser concretizada. É que eu e mais uns amigos menos jovens da margem Sul, que não andamos cá só para ver os aviões, ainda gostaríamos de poder ver este “deserto” mais desenvolvido.

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