Luís Barreira

Confinamento! Mal me quer… bem me quer…

No passado fim de semana os portugueses entraram em mais um período do Estado de Emergência, renovando a situação excecional em que já nos encontrávamos e que se vai manter até dia 11 de março, sem que tenham sido aliviadas quaisquer medidas restritivas e sem que se saiba a partir de que data possamos começar a desconfinar e bem como iremos fazê-lo.

No entanto e no mesmo momento em que foi decretado este novo confinamento, com todas as restrições e pesadas multas pelas infrações, o sol brilhou neste nosso jardim plantado à beira-mar e cerca de quatro milhões de portugueses (segundo uma amostra representativa do todo nacional) saíram à rua para “apanhar ar”, desrespeitando as regras acabadas de ser restabelecidas.

Confinamento! Mal me quer-portugal-mileniostadium

Confesso que também me apetecia ter ido passear num dos muitos paredões da nossa costa ou passear numa das praias, gozando o prazer do sol, da temperatura amena e dar ao corpo uma pequena dose de vitamina D, tão esquecida por este inverno cinzento e tão chuvoso. No entanto, não fui! Por obediência (…) às normas em vigor, mas e sobretudo por considerar que, apesar da satisfação que nos causa termos conseguido (até agora) um enorme decréscimo dos casos sanitários produzidos por esta pandemia, ainda não nos encontramos em situação de poder dispensar grande parte das restrições a que temos estado sujeitos.

E, se dúvidas houvesse sobre a eficácia das medidas de confinamento destas últimas semanas, bastaria relembrar que, a 28 de janeiro último, Portugal era o país europeu (entre os 27) com maior número de casos por 100.000 mil habitantes (cerca de 1.264 casos por 100.000 habitantes) e a 25 de fevereiro somos um dos quatro melhores países com menos casos (com 124,93 casos por 100.000 habitantes). Um resultado que não queremos perder, antes melhorar!

Atualmente, entre os países europeus com mais problemas pandémicos estão a Estónia e a Hungria e alguns outros, como a Bélgica, a França, a Alemanha ou a Noruega, assumem ter de tomar medidas mais fortes para impedir o aumento de casos devidos à circulação da variante britânica do coronavírus.

Considerando que: toda a população portuguesa tem acesso a esta realidade nacional e internacional, através dos meios de comunicação nacionais; que no país não existe nenhum

movimento negacionista deste vírus e das formas de o combater com impacto na população e que o confinamento temporário não é uma situação que exija grandes sacrifícios, embora por vezes se torne pouco suportável, porque é que, com alguns raios de sol e uma atmosfera primaveril, tantos portugueses “saltaram para a rua”, como nunca tinha ainda acontecido desde o início do ano?

Sem ignorar outro tipo de razões que justifiquem esta atitude, centrava-me em duas que me parecem as principais. 

Face aos bons resultados que estamos a obter na erradicação dos contágios, na diminuição dos óbitos e na recuperação dos doentes, associados à progressão da vacinação, muitos de nós começam a encarar a atual situação como o “final do tratamento” contra o vírus e a supressão do perigo de contágios, expondo-se sem receios. E tal não é verdade! A Covid-19 e as suas variantes conhecidas (e desconhecidas…) continuam ativas em Portugal, contagiando e matando portugueses, e estamos ainda muito longe da vacinação completa (prevê-se que, se houver vacinas, apenas em setembro teremos 70% da população vacinada) e não nos podemos esquecer do que nos aconteceu depois do Natal e Fim de Ano.

Outra circunstância que possa estar a iludir a população portuguesa para uma imediata falsa imunidade, levando-a a arriscar progressivamente o seu confinamento, tem sido o alarde público dado pelos média a todas as declarações a propósito do que deve ser desconfinado e quando e como fazer o desconfinamento, enchendo o painel noticioso com entrevistas a técnicos de saúde, epidemiologistas, políticos, dirigentes de instituições profissionais, patronais e comentadores de todo o tipo (até de futebol…). Claro que, embora nenhum se atreva a colocar em causa os excelentes resultados obtidos com o atual confinamento e poucos sugerem a data para o anular (o diabo/Governo que assuma o ónus…), a pressão exercida por estas informações gera na população o errado entendimento de que o maior perigo já passou, que podemos aliviar as precauções e sair à rua quando nos apetecer.

Sem causar um pânico desnecessário, nem provocar mal-estar aos portugueses, é preciso ser-se claro nos discursos públicos, evidenciando que estamos a obter bons resultados com as atuais restrições, mas o “filme” ainda não acabou e o retrocesso é possível!

Todos compreendemos as razões que levam responsáveis de todo o género a pressionar o Governo e as populações trabalhadoras a apressar o desconfinamento. Elas são económicas e sociais, perante o futuro da recuperação do país e os desafios financeiros que se acumulam, mas não podemos baixar a guarda face a um inimigo que ainda não desarmou, hipotecando toda a guerra que travámos até aqui e qualquer futuro possível.

É prematuro desconfinar!

Redes Sociais - Comentários

Artigos relacionados

Back to top button

 

Quer receber a edição semanal e as newsletters editoriais no seu e-mail?

 

Mais próximo. Mais dinâmico. Mais atual.
www.mileniostadium.com
O mesmo de sempre, mas melhor!

 

SUBSCREVER