Luís Barreira

A Covid VS violência doméstica!

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Crédito: DR

Os portugueses, salvaguardando algumas infelizes exceções que não colocam em causa a regra, parecem ter (desta vez…) aceitado o compromisso exigido pelo Estado de Emergência em que nos encontramos, respeitando as normas mais rígidas deste novo confinamento. E os efeitos não se fizeram esperar: menos óbitos; menos infeções; menos internamentos e mais pessoas salvas desta pandemia.

Os apelos, as multas agravadas, o policiamento mais robusto e as interdições, além do medo provocado pela memória das mais de 3600 mortes por Covid, entre 25 de janeiro e 7 de fevereiro deste ano, permitiram um claro e progressivo desanuviamento no cenário pandémico em que nos encontrávamos, exibindo agora valores semelhantes àqueles em que nos situámos, antes do “relaxamento” do Natal e Fim de Ano de 2020.

No entanto, ainda é cedo para lançar foguetes, no que diz respeito ao abrandamento do confinamento, sob pena de vermos a situação retroceder, nomeadamente enquanto não tivermos uma boa parte da população vacinada e mais claros conhecimentos sobre o efeito das atuais vacinas perante as variantes do coronavírus que têm invadido o país.

Se o confinamento da população em geral, aumentado pelo teletrabalho e o fecho das escolas, tem permitido reduzir os efeitos da pandemia, não é claro que não produza efeitos colaterais nocivos à nossa sociedade, sobretudo às nossas famílias.

Não me refiro explicitamente aos confrangimentos psicológicos que afetam certos extratos da nossa população, nomeadamente os mais jovens e todos os ansiosos pela “liberdade total”! Estamos de facto numa “guerra” contra um inimigo invisível e mortífero, mas se fosse de facto uma guerra convencional, como aquelas que atingiram as nossas anteriores gerações, como nos sentiríamos envergonhados ao comparar os sacrifícios que agora nos são pedidos, com aqueles que eles sofreram!? E nós estamos cá porque eles sobreviveram!

Violência sobre as mulheres aumentou durante a segunda vaga

Ao referir-me aos efeitos perniciosos sobre as nossas famílias, em consequência do confinamento a que estamos sujeitos, sem esquecer as consequências na pobreza em extratos da população desempregada, refiro-me mais especificamente a outra “pandemia” que, teimosamente, persiste na nossa sociedade: a violência doméstica!

A Organização Mundial de Saúde (OMS) já tinha alertado para um aumento exponencial (60%) da violência doméstica no mundo, durante o confinamento imposto pela pandemia da Covid-19.

Em Portugal, entre 22 de março e 3 de maio do ano passado, em pleno período de isolamento, a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) reportou que foram denunciados 683 casos de violência doméstica, sendo que 83% foram vítimas do sexo feminino e 17% de homens. Numa análise mais detalhada conclui que as agressões ocorreram em contexto de intimidade, com 12,6% sobre crianças e 14,9% sobre idosos. O estudo revela igualmente a enorme prevalência dos homens como agressores o que, considerando os inúmeros exemplos publicamente conhecidos através dos média, reforça a convicção de que a nossa sociedade continua a ser extremamente homofóbica. De notar, no entanto, que em 2020 se verificou um pequeno decréscimo dos casos conhecidos de violência doméstica, em relação a anos anteriores, mas a intervenção de novos fatores, como o confinamento dos agregados familiares, com a vigilância mais apertada das mulheres face à presença dos companheiros, a sua dificuldade no aconselhamento fora do lar, assim como as contrariedades em encontrar vagas nas residências protegidas pelo Estado e o medo da dependência económica no difícil período de ausência de empregos que atravessamos, podem inverter a perceção dessa pequena tendência de decréscimo nos casos de violência doméstica.

Poderíamos pensar que estes indesejáveis indicadores terão tendência a desaparecer com a renovação de gerações, partindo do pressuposto que as gerações mais novas, com maior desenvolvimento cultural e diferentes formas de livre relacionamento, se afastam dos negativos comportamentos sociais tradicionais da nossa sociedade. Mas tal não é verdade!

O Estudo Nacional sobre a Violência no Namoro 2020, realizado desde 2017 e participado por jovens do 7° ano ao 12° ano de escolaridade, revelou que 58% de jovens que namoram ou já namoraram reportam já ter sofrido pelo menos uma forma de violência física, verbal, psicológica, relacional ou sexual por parte de atual ou ex-companheiro/a e não menos grave… 67% de jovens consideram como natural algum dos comportamentos de violência. Como explicar esta desconformidade comportamental?

Há quem atribua estas situações à repetição de exemplos parentais vividos pelos jovens, à ausência educativa dos progenitores e à falta de um ensino escolar vocacionado para combater estes dramas sociais. Porventura, todas estas razões são, em diferentes dimensões, responsáveis por esta “epidemia” social que nos envergonha, fere e mata!

É bem verdade que a nossa sociedade está hoje muito mais aberta a discutir este tipo de problemas (que antes se subjugava ao dogma “Entre marido e mulher ninguém deve meter a colher”) e as denúncias de vizinhos, familiares e amigos têm ajudado à deteção de muitos casos. Também não é menos verdade que o Estado português tem tomado bastantes medidas coercivas contra os agressores e reforçado as ações de vigilância e atuação policial. No entanto, o problema persiste!

Para que não se torne um problema endémico às nossas sociedades é preciso que cada um de nós aja em conformidade, não aceitando calar-se perante esta primitiva forma de estar no mundo!

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