Opinião

Letra para um Réquiem

Ontem foi o dia de te apresentar, juntamente com os outros netos/autores que me fizeram companhia no Jardim do Palácio de Fronteira, onde expusemos as raízes de que fomos e somos feitos. Chegada a minha vez, e numa breve nota final, justifiquei a razão de teres sido tu o eleito, apesar de nunca te ter conhecido. Porque a morte te levou demasiado cedo, impedindo-te de um dia chegares a ser avô, o meu testemunho nada mais foi do que o tributo a um defunto. Assim, ligando o nome que te deram no batismo, Amadeu, ao do grande compositor austríaco, compus esta “Letra para um Réquiem”.

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Quando eu nasci, tu já não existias.

Partiras demasiado cedo, deixando viúva a avó Catarina e sete órfãos para criar – o mais velho dos rapazes, meu pai, com 14 anos. Foi na certidão de nascimento dele que te conheci: filho de Amadeu Batista – um nome e um apelido.

À medida que fui crescendo, fixei-te numa imagem sem corpo, emoldurada de vozes, que me contavam o tão pouco que sei de ti. A partir delas, deitei-te no soalho do chão da sala, em posição fetal, enrolado nas dores que não aguentavas. Num rosto indefinido, tracei-te os esgares de sofrimento com que calavas a agonia que te roía por dentro. A vizinhança ouvia os gemidos que vinham da casa no cimo da rua, no cabeço, sem te poderem valer, que nem os médicos o puderam fazer.

– O meu pai sofreu muito e nunca lhe deram nada para o aliviar.

Era este o lamento recorrente de meu pai que, de tanto o repetir, parecia acompanhar-te ainda naquela dor, apesar de longínqua. Pouco mais acrescentava e eu também nada perguntava. Faltava-me a coragem porque, menina ainda, soube ler no seu silêncio a pesada carga da herança que a tua morte lhe deixara – uma mãe e mais seis bocas para alimentar. Cumprir um destino, que de repente lhe caiu nos braços, obrigou a urgências, a prioridades, que não deixaram tempo para chorar o luto da tua ausência.

– Prá frente é que é o caminho, rapaz! – dizia o pragmatismo dos mais velhos, treinados na luta pela sobrevivência.

E ele trilhou, literalmente, o caminho das pedras, com pancadas secas, fazendo do golpe certeiro na cantaria um modo de vida.

Já adulta, fiz muitas vezes com meu pai a estrada que nos levava de Moimenta da Beira até Pinheiros – a aldeia que te serviu de berço -, percorrendo as íngremes e sinuosas curvas escondidas nos pinhais. De vez em quando, ele interrompia a viagem:

– Olha, o meu pai trabalhou aqui… ali… e também além… -, apontando lugares definidos por uma toponímia de esforço e de cansaço, num tempo em que os pés marcavam o ritmo da caminhada.

Dizia sempre “o meu pai” e nunca “o teu avô”, pois tu não chegaste a ser avô – nem meu, nem de nenhum dos muitos outros netos que se seguiram -, porque bem cedo as nossas vidas se desencontraram.

Há muito pouco tempo, alguém descobriu uma velha fotografia de família. Figuras esguias perfilavam-se a preto e branco, as cores da fome e do servilismo que grassavam no país. Apesar de muito esbatida, consegui ver-te pela primeira vez e não me surpreendi. Percebi logo que tu e meu pai são dois lados de um só espelho, fundidos e confundidos nos mesmos traços físicos!

Satisfeita a curiosidade durante tantos anos alimentada, esta imagem pouco acrescentou à tua história de vida. Mas foi bom conhecer-te naquele pedaço de papel desgastado pelo tempo. Porque a moldura, até então, feita apenas de vozes e de lugares, pôde ganhar um rosto a juntar ao teu nome – Amadeu.

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