Opinião

Já muitos foram chamados. Todos vamos seguir o mesmo caminho.

Será que se vai conseguir manter as tradições regionais como alguns mestres de cozinha nos ensinaram?

Morreu a Dona Cinda Borges – uma histórica figura do sarrabulho à moda de Ponte de Lima. Assim era conhecida esta figura de respeito e emblemática da gastronomia de Ponte de Lima que fundou três restaurantes hoje geridos pelos filhos. Natural da freguesia de Correlhã, Cinda Borges era uma Senhora na confeção do sarrabulho. Orgulho-me de ter participado em várias tertúlias onde muitas vezes o prato era confecionado por ela, e se não fosse ela a confecionar havia um toque final da Dona Cinda. Mulher simples, mas sabia do que falava. Dava gosto ouvi-la falar de gastronomia minhota, especialmente do sarrabulho. Sempre bem-disposta e sem papas na língua, muitas das vezes repetia a célebre frase – “a gastronomia está toda inventada só há que manter e melhorar sem sair da regra de confeção tradicional”, como bem ela o sabia fazer. Ponte de Lima ficou mais pobre. Esperemos que as novas gerações consigam manter o que de bom muitos, como a Dona Cinda, nos ensinaram. Agora que nos deixou, espero que lhe façam a merecida homenagem por tudo o que ela fez em prol dos bons manjares e do bom nome que hoje Ponte de Lima tem em termos gastronómicos. Fazia parte da confraria do sarrabulho à moda de Ponte de Lima, um tipo de iguaria que se pode dizer o melhor do país. São milhares os que se deslocam ao fim de semana para saborear o típico arroz de sarrabulho, na vila mais antiga de Portugal que não quer ser cidade.

Assim a riqueza e os valores da nossa gastronomia minhota nos vão deixando. Já há anos atrás o chefe Silva nos tinha deixado, também um senhor da boa gastronomia. Além de excelente chefe, ficou conhecido pela participação em programas de culinária na RTP. Era um ilustre profissional da gastronomia. Grandes cozinheiros passaram pela mão dele. Natural de Caldelas, Amares, chefiou grandes hotéis, mais tarde reforçou a sua imagem ao fundar a revista Teleculinária e, desde então, publicou alguns livros. Pessoas simples que não precisaram de um curso superior para se destacar – com as mãos e o seu bom palato fizeram grandes obras e inovaram aquilo que aprenderam com os seus avós e nas regiões rurais, como ambos assim o diziam. A gastronomia está toda inventada haja quem a mantenha viva.

Foi um recordar de excelentes profissionais que, como estes, há por todo lado. E ninguém se aproxima dos mesmos para tirar proveito do tanto que pessoas deste tipo sabem fazer. O Minho ainda consegue dar cartas com as suas gentes de garra e a sua juventude humilde que procura dar continuidade no que toca as tradições gastronómicas. Venham muitos como este exemplo a seguir: em maio passado, o jovem Rui Pedro Meira, natural de Areosa, Viana do Castelo, foi o grande vencedor da segunda edição do Minho Young Chef Awards,  que teve lugar em Vila Nova de Famalicão. Este jovem destacou-se com a confeção de um arroz de sarrabulho de forma tradicional e outro reinventado. Na cozinha, além das tradições, há o reaproveitamento, o reinventar. Este jovem foi um concorrente que se destacou em grande,  apostou na tradição e juntou-lhe alguma originalidade, sem sair do conceito da cozinha típica da região, não esquecendo que se trata de um prato extremamente minhoto.

Gastronomia é património, cultura e a sua preservação significa manter as tradições mais antigas  que marcam a identidade de um povo que marcou pela diferença e genuinidade. Hoje é uma verdadeira componente da oferta turística. A boa gastronomia arrasta multidões quando é genuína. A cozinha tradicional continua a dar cartas, em qualquer parte que se conste de um prato típico e genuíno toda a gente corre e repete. Comer e beber bem é significado de hospitalidade e saborear a gastronomia do Minho é isso tudo e muito mais.

Saber comer é uma arte, e saber confecionar o que lhe chamamos?

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