Opinião

Fora do contexto

A salsa do meu quintal/arrebenta pelo pé Assim arrebenta a boca/ a quem diz o que não é. - Canção popular

Com relativa frequência, criticamos a oralidade dos jovens pelo recurso a termos e expressões que constituem todo um impenetrável código de comunicação, em que o “tá-se”, a rematar a maior parte das frases, ganha estatuto de ponto final. A crítica estende-se igualmente à escrita, em que a excessiva utilização de abreviaturas é dominante, esquecendo-nos que estas sempre existiram, tendo o “i.é” e o “etc.” permanecido como despojos destas lutas entre a versão completa e a versão reduzida das palavras.

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Confesso que, enquanto estudante da Faculdade de Letras, fui uma exímia utilizadora desta técnica de saber abreviar que, aliada a uma letra bem desenhada, fez com que os meus apontamentos fossem bastante requisitados e circulassem amiúde entre colegas. Quando os revejo, espanto-me com a rapidez da escrita, a precisão da letra e a unidade do pensamento.

Hoje, o telemóvel é a ferramenta sempre à mão para fotografar ou gravar aquilo de que precisamos. Apesar disso, ainda há quem se surpreenda com o universo das abreviaturas. Há pouco tempo, trocando eu e-mails com uma amiga, terminei o texto com o beijo habitual e, por ser sexta-feira, desejei-lhe um bom fds (ressalvo que esta é uma abreviatura que pouco utilizo, e de que não gosto particularmente, por se prestar a trocadilhos brejeiros). Recebi como resposta: “Desculpa a minha ignorância, mas o que é um fds?” Está-se mesmo a ver o quanto me ri, nunca imaginando que alguém da minha geração não a conhecesse.

O episódio é válido para qualquer outra língua, porque todas elas recorrem também a abreviaturas. Durante o período em que tive alojamento local, troquei mensagens com turistas de diferentes nacionalidades. Um deles enviou-me um sms a começar assim: FYI. Não lhe dei grande importância, e passei à frente para ler o resto do texto em que me comunicava o atraso do voo. Voltei atrás intrigada, tropecei naquele FYI e fiquei a matutar no assunto. Que significaria? Calculei que fosse: For Your Information! Fazia todo o sentido, mas não tinha a certeza. Para que a dúvida instalada não me continuasse a martelar a cabeça, telefonei a uma amiga que me confirmou estar certa.

Outra questão que levanta ruídos na comunicação é também o facto de emissor e recetor nem sempre estarem no mesmo contexto. E todos nós conhecemos inúmeras histórias, dignas de figurarem no anedotário nacional, provocadas por mal entendidos entre interlocutores nessa situação. Esta, que vou contar, passou-se há dois anos nas Correntes d’Escritas, festival a que sempre vou acompanhada de duas amigas. Vivendo nós no interior do país, é natural que, estando uns dias na cidade da Póvoa de Varzim, nos sintamos atraídos pelas compras. E foi nesse clima de novidade que uma das minhas amigas decidiu levar uma prenda para o neto. Fez-lhe uma chamada e ele sugeriu que lhe comprasse um determinado cinto. Deixou-nos, não sem primeiro avisar que chegaria atrasada à sessão seguinte.

A organização não permite que se guarde lugar, mas, naquela tarde, ela teve sorte e, quando chegou, sentou-se mesmo ao nosso lado. A sessão já tinha começado, mas a outra amiga, curiosa por saber do desfecho da compra, segredou-lhe:

– Então, sempre encontraste o cinto que ele queria?

– Sim, sim, consegui. Acho que ele vai gostar, é muito giro… fui à Salsa.

A outra, muito espantada, observa:

– Salsa? Mas levas salsa daqui para Abrantes?

Não lhe passava pela cabeça que alguém obrigasse um pé de salsa a viajar tantos quilómetros! E tudo isto porque, com aquele nome, apenas conhecia a erva aromática, nada sabendo sobre a existência da marca de uma cadeia de lojas já internacionalizada.

Não fora o silêncio que a sessão exigia, e ter-nos-ia arrebentado a boca de tanto riso!

 

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