Opinião

Façamos um Natal diferente!

Com a aproximação do Natal, todos os sininhos e campaínhas comerciais e de solidariedade social nos avisam para a compra de todos os géneros de produtos a ofertar e para a dádiva solidária em favor dos mais desfavorecidos.

Interrogamo-nos sobre o que havemos de comprar e oferecer, de acordo com o padrão de quem recebe e das possibilidades financeiras de cada um, tentando escapar a todo o tipo de publicidades que vendem “gato por lebre” e a alguns peditórios enganosos que exploram os nossos sentimentos fraternos.

Vão longe os meus tempos de infância e o cheirinho que o meu verde pinheiro natural de Natal deixava em toda a casa. Hoje, abater um pequeno pinheiro é ecologicamente condenável, mesmo que isso ajude a manter as nossas florestas mais limpas e organizadas, mas comprar árvores de plástico de todas as cores e tamanhos parece ser socialmente tolerável, contra todas as campanhas em desfavor do uso de plásticos.

Isto e tantas outras coisas que se passam hoje no Natal são assim. E quase todos embarcamos nisto!

O Natal tornou-se prisioneiro das campanhas de marketing comercial e das tendências que nos são ditadas pelos mesmos, ganhando o colorido e o frenesim nas lojas e centros comerciais e perdendo muito do seu significado original para os crentes e o afeto e amor que gerava entre todos aqueles que não professam nenhuma religião.

O valor das prendas que tradicionalmente oferecemos uns aos outros, enquanto adultos são, numa grande parte das vezes, mais o resultado de retribuições de favor do estatuto ou de conveniência socialmente imposta, do que aquelas que, independentemente do seu valor, poderiam ser mais apreciadas por quem recebe. Já não se escolhem prendas surpresa para os mais novos em função do seu entretenimento educativo ou necessidades várias, mas aquelas que eles (as crianças) escolhem pela publicidade nas lojas, na internet ou que viram em casa de um amigo.

Assim, a espiral do crédito ao consumo e do endividamento de muitas famílias cresce exponencialmente neste período. E quase todos embarcamos nisto!

É também neste tempo que nos aparecem as mais diferentes associações humanitárias, pedindo géneros ou dinheiro para os seus diferentes objetivos de ajuda caritativa. Na rua, às portas de casa ou dos supermercados, gente emblemada ou sem nenhuma identificação, sugerem-nos uma oferta para gente com fome. E é nestas alturas que, mesmo contribuindo, me interrogo se “a gente com fome” apenas come no Natal, se as ditas associações são de facto credíveis nos objetivos que apregoam ou se não estamos a alimentar mais um escândalo de desvio de fundos. E quase todos embarcamos nisto!

Talvez a minha razoável idade esteja a condicionar a minha apreciação do Natal dos nossos dias e a envolver-me num conflito geracional, no qual eu e muitos outros fazemos das nossas recordações o ideal dos festejos do Natal. Mas não é bem assim. Se a maneira como vivemos agora este tempo é de alguma forma censurável, a culpa é de nós próprios que deixámos que as coisas fossem evoluindo neste sentido, sem preservar o que de mais precioso deveria ser mantido nas comemorações natalícias: o encontro da fraternidade e amizade entre as famílias e amigos, cujo conceito deve abarcar aqueles que mais precisam de nós.

Este é o período de excelência para refletir sobre a pouca sorte de tantas crianças e adultos, para quem um prato de sopa ou um brinquedo de madeira poderia torná-los mais felizes num Natal feito de todos os dias. Prendas que pouco custariam a cada um de nós, destinadas a gente que gostaria de viver com um pouco de nós.

Dito assim, em pleno período de Natal, nada acrescenta à habitual retórica humanista com que muita gente brinda esta época. É preciso ir mais longe quando abrimos o nosso espírito solidário e não ficarmos apenas por palavras simpáticas num tempo determinado.

Existem estruturas e associações humanitárias, honestas e eficazes, pelo mundo inteiro, dedicando-se à ajuda aos mais desafortunados, que merecem o nosso apoio permanente e que, com uma simples dádiva mensal, podem atenuar (não resolver. Assunto para outras instâncias e comprometimentos!), as graves carências de muitos milhares de pessoas. E, se não acreditamos nelas, juntemos amigos bem-intencionados e criemos novas organizações com esse fim, fazendo do Natal um ponto de partida para novos amigos.

Se o Natal desperta o amor entre nós e aumenta a nossa generosidade para com os outros, dê-lhe desta vez um maior significado a quem dele necessita todos os dias.

Ofereça uma prenda a um desconhecido e ganhe mais um amigo!

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