Opinião

E assim nasceu a cronista

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Amália morreu no dia 6 de outubro de 1999, faz esta semana 21 anos. Trabalhava já em Toronto, quando recebi a notícia. O Milénio havia nascido no ano anterior, e Frank Alvarez convidara-me para, de vez em quando, enviar um artigo. Hesitei na resposta e deixei-me estar quieta, medindo as consequências de me vir a tornar numa colaboradora regular.

A morte de Amália foi o clique que me fez correr para o computador e escrever o texto com que iniciei a minha colaboração neste jornal até aos dias de hoje. Não posso parafrasear Frei Hermano da Câmara, e dizer que “ser cronista foi meu sonho…”, mas a verdade é que a morte da fadista fez, a partir daquele dia, nascer uma cronista.

Sala Mortuária

Fumo, algumas

flores, certas

lágrimas,

A incómoda deposição,

O fútil

Disfarce do lenço

Fome, sono,

Barulho de condolências

Querem saber como foi.

De pequeninas coisas mortais falam.

Anedotas, sorrisos, café.

O corpo espera:

aguarda o golpe de misericórdia.

António Osório

Não, Amália, não foi este o cenário na hora da tua despedida. A tua grandeza não cabia neste poema reservado à maioria dos mortais. Tu não tiveste apenas “algumas flores”, mas um país inteiro a multiplicar-se em pétalas que perfumaram o teu adeus.

Tu não tiveste “certas lágrimas”, mas o mundo inteiro a chorar por ti tal como tu pediste “quando eu morrer, por favor, chorem por mim”. O mundo fê-lo, não porque tu pediste, Amália, mas porque todos o sentiram. Qual torrente, elas soltaram-se com a mesma espontaneidade com que a tua voz nos encheu os corações.

Tu não tiveste “o fútil disfarce do lenço”, mas milhares de lenços brancos acenando o último adeus, qual deusa pairando numa assunção de apoteose.

“Sono” não sentiram os que durante toda a noite te visitaram nem os que, de longe, madrugaram para em peregrinação te prestarem a última homenagem.

“Barulho de condolências”, esse, ouvimo-lo vindo de todos os cantos do mundo: os jornais que publicaram a tua perda; as televisões que noticiaram a tua partida; as rádios que incessantemente fizeram ecoar a tua voz em melodias sentidas de “dor e de pranto”, num luto que extravasou fronteiras.

“Querem saber como foi”. Não, Amália, não importa como foi. Mais uma vez o fado se rendeu a ti e te fez a vontade. Deu-te o que pediste: estavas a dormir e a dormir ficaste, olhos fechados de quem canta o seu último fado “coração que não comando”. Disseste numa entrevista em Toronto, quando te perguntaram se “amavas muito a vida”, “eu não tenho é amor nenhum à morte”. Por isso, respeitando o teu recato e pudor, ela veio de mansinho e levou-te sem que ninguém desse por isso.

“De pequeninas coisas mortais falam”. Não, Amália, que a tua vida não era feita de banalidades. Exaltaram a tua carreira, falaram dos grandes com quem privaste, da geografia de afetos que geraste, da glória que deste ao nosso país, da nobreza do teu porte, porque apesar de teres nascido humilde, soubeste ser Rainha em todos os palcos que pisaste. Tu que levaste outros povos a aprender a língua de Camões para te cantarem, mesmo que o chão passasse a ser “saglado” como o chamavam em japonês.

“Anedotas, sorrisos, café” não houve Amália. Isto são coisas de entreter velórios vulgares.

Tu não tiveste velório, Amália, olhávamos-te serena e mais viva do que nunca, porque a tua voz continuava a cantar. As guitarras trinaram sempre e fizeram com que fosses mais uma entre os que “da lei da morte se foram libertando”.

“O corpo espera: aguarda o golpe de misericórdia”. Tu não eras corpo, eras alma, a alma de um país que continuarás a cantar na saudade, no amor, na dor, na solidão, mas a cantar sempre, porque és eterna.

Dizias no teu poema “Mas se alguém gosta de mim / Algo de mim sobrevive”.

Porque todos gostamos tanto de ti, recordamos o teu “Barco Negro” e cantamos em coro: “Tu não chegaste a partir”.

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