Opinião

Depois de 74, o que mudou?

De vez em quando sinto-me desgostoso e revoltado com algumas declarações feitas por pessoas anónimas e outras bem identificadas, colocando em causa a evolução da sociedade portuguesa, depois de 25 de Abril de 1974.

Sou capaz de perceber a angústia de alguns que perderam alguns privilégios, o desconhecimento de todos aqueles que não viveram antes dessa data e a confusão gerada pela luta política interpartidária durante estes últimos 45 anos, como elementos que estão apensos a esses juízos. O que não consigo aceitar é a ausência de memória, o desconhecimento das realidades do antes e do depois e a incapacidade para compreender a dinâmica da história!

Vem isto a propósito de uma efeméride que marcou positiva e profundamente a vida futura do nosso povo e que agora alguns teimam em considerá-la desprovida de sentido.

A 25 de Março de 1957 em Roma, foram assinados os Tratados Constitutivos da Comunidade Económica Europeia (CEE) e da Comunidade Europeia de Energia Atómica, aos quais Portugal viria a aderir em 1985 e que mais tarde se transformou em União Europeia.

A entrada de Portugal na CEE, associada ao desenvolvimento político da nossa democracia e à capacidade do nosso povo em se envolver nas mudanças essenciais da nossa sociedade, produziu resultados extraordinários no nosso bem-estar, que são bem visíveis num censo produzido em 2014 e que hoje, cinco anos depois, só peca por defeito.

Entre 1974 e 2014, Portugal passou de 8.754.400 a 10.514.800 habitantes o que, pese embora uma diminuição da taxa de nascimentos, pode ser explicado por uma esperança de vida que passou de 68,2 para 79,8 anos, impulsionada por um aumento dos cuidados de saúde e da população estrangeira (4%). E que, num mesmo contexto dos cuidados médicos, fez descer a mortalidade infantil de 37,9% em 74, para 3,4% em 2014.

No domínio das pensões sociais, neste período de 40 anos, elas passaram a abranger em 2014, cerca de 3.584.902 de habitantes quando, em 1974, abrangiam apenas 780.399 habitantes.

Outro indicador interessante do desenvolvimento do bem-estar e higiene das nossas famílias salienta que, em 74, apenas 47% beneficiavam de água canalizada e 60% de alojamento com esgotos e, em 2014, essa percentagem passou para 99% para as duas situações, sendo que os alojamentos ocupados por proprietários evoluíram de 50% para 73%.

No mesmo período e no âmbito da educação, a evolução foi surpreendente. O pré-escolar passou de 8 a 89%; o 1° Ciclo de 85 a 100%; o Secundário de 5 a 72%; o Superior de 0,9 a 14,8% e a taxa de analfabetismo foi reduzida drasticamente de 26 para 5%.

Na área da saúde, acompanhando o desenvolvimento educativo, a formação mais universal e tendo em consideração que a população com +65 anos aumentou de 856 mil para 2.020 mil idosos, o número de cuidadores da saúde, no período em análise, passou de 11 mil, para 44 mil médicos; 19 mil, para 65 mil enfermeiros, traduzindo-se em 4.170 consultas por cada 1.000 habitantes quando, em 75, eram apenas 2.736.

Estes são apenas alguns dos indicadores que nos dão a entender o seu reflexo noutras categorias da vida societária portuguesa, cujas manifestações públicas são hoje vistas como tão naturais, que nem nos apercebemos que não seriam possíveis sem o episódio histórico que teve origem em 1974.

Bem sei que ocorreram manifestações bem desagradáveis durante estes últimos 45 anos e que algumas delas teimam em ser repetíveis, embora cada vez mais denunciados pela liberdade que a democracia nos garante. Mas pensar que a solução possa estar num regresso ao passado, senão é uma consequência de uma afetação do foro psicológico é, pelo menos, uma manifestação de uma velha e negativa tradição portuguesa dos “velhos do Restelo”, quando auguravam desastres nacionais perante a partida das caravelas portuguesas.

A sociedade que construímos e o conjunto de compromissos internacionais que assumimos, não são a fórmula perfeita da vida social a que aspiramos, mas são o que de melhor nos foi possível, no quadro disponível dos constrangimentos nacionais e internacionais que nos limitam.

Em vésperas de novas eleições europeias e perante alguns desafios à nossa memória e inteligência, é bom não esquecer um dos objetivos que a Europa proporcionou aos seus povos: “promover a paz, os seus valores e o bem-estar dos seus cidadãos”!

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