Opinião

Decretem lá, quantos beijos se dá!

Somos seres gregários, nascidos para vivermos em grupo. Este traço congénito não nos impede de apreciar os momentos em que estamos sozinhos. Essa, contudo, é uma solidão desejada, um intervalo de silêncio entre os diversos ruídos do quotidiano, ditado pela necessidade de reflexão.

V-J Day in Times Square, a photograph by Alfred Eisenstaedt, was published in Life in 1945 with the caption, “In New York’s Times Square a white-clad girl clutches her purse and skirt as an uninhibited sailor plants his lips squarely on hers”

Do facto de sermos parte de um grupo, e da necessidade de nele vivermos integrados de forma pacífica e harmoniosa, nasceram as regras pelas quais nos regemos e somos socialmente aceites. Forjadas no respeito mútuo, variam de acordo com o tempo e as sociedades em que estamos inseridos, numa troca equilibrada entre direitos e deveres. Ao formarem o corpo jurídico de qualquer organização social, dão origem ao que se convencionou chamar um Estado de Direito, em que todos estão sujeitos a uma jurisprudência comum.

“A conversação dos beijos. Subtil, absorvente, destemida, transformadora.”

Alice Munro

Outras normas há que não carecem de decretos, portarias ou artigos. Simplesmente existem e são praticadas ao longo de séculos. A sua ancestralidade atravessa as famílias e vai-se adaptando aos tempos. Muitas delas são transversais a todos, independentemente do estrato social a que pertencem. É o caso do leve menear de cabeça de cada vez que se cumprimenta alguém, de saber agradecer, de pedir por favor, de não bater com a porta na cara, de dar primazia a uma senhora ou aos mais velhos, e tantas outras que interiorizamos de forma automática, porque com elas crescemos desde que nos conhecemos.

Precisava deste introito, porque me ocorreu hoje abordar a linguagem do beijo. Como sociedade do Sul da Europa, temos características latinas e, por isso, somos menos contidos no toque e nos gestos, do que as nórdicas, onde os cumprimentos se ficam por um aperto de mão ou um abraço. Sei do que falo porque vivi algum tempo na Finlância, onde pude constatar que as crianças, em especial as do sexo masculino, deixam de beijar as mães muito cedo, especialmente se estiverem em locais públicos. Recordo-me das eleições presidencias, disputadas durante a minha estada, em que havia uma candidata. Nas campanhas de rua, apertava a mão às crianças que dela se aproximavam, o que sempre me fez uma enorme confusão! Não imaginava que tal pudesse acontecer em Portugal, onde as crianças com aquela idade ainda pedem colo.

Comentei com os meus alunos estas diferenças de comportamento, apesar de sermos todos europeus. Rimo-nos muitas vezes da expressão corporal dos finlandeses iniciados no cumprimento com um beijo. O corpo mantinha-se ereto e rígido, faltando-lhe aquele gingar do tronco e dos braços que torna tudo tão natural! Falamos também da forma e do número de beijos que usualmente os diferentes povos dão entre si, não faltando a referência ao tão divertido beijo à esquimó.

Em Portugal, a prática é de dois beijos na cara, disse-lhes eu. Ultimamente, propagou-se, entre gente de uma certa linhagem, o hábito de dar apenas um beijo. Não sei desde quando se convencionou que seria assim, mas basta estarmos atentos ao comportamento de certos grupos para logo percebermos que se ficam pela metade. Está tudo bem quando estes encontros se dão inter pares. O problema apenas se levanta quando há misturas, e nunca sabemos como vamos ser cumprimentados. Dar ou não dois, eis a questão!

Jogando à defesa, dou um, e começo a afastar a face em câmara lenta na expectativa de saber como vão reagir. Umas vezes acerto, outras não! Às vezes, ainda vou a tempo de emendar a mão (neste caso, a cara), noutras, não! O que me irrita, e muito, é, em plena rotação, não chegar a perceber a intenção e ficar com a cara pendurada à espera do segundo beijo.

Nesses momentos, interrogo-me sobre o snobismo de um gesto que, como uma senha, ao primeiro deslize denuncia a nossa condição de pertença ou exclusão. A escritora canadiana Alice Munro precisou de quatro adjetivos para definir a conversação dos beijos. Tivesse ela vivido em Portugal, e teria necessidade de criar mais um!

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