Opinião

Crime e castigo!

Voltar a falar sobre a pandemia da Covid-19 pode parecer abusivo, um incentivo ao pânico ou meramente inconveniente, perante as diversas preocupações económicas atuais. Mas, o facto de ela continuar a progredir em todas as latitudes mundiais, tendo já atingido mais de 10 milhões de infetados e um número superior a 500 mil mortos, não pode deixar de ser comentada a atenção que devemos ter em relação à sua prevenção.

 

Village emergency response teams undergo training in using protective suits when responding to potential cases of the Covid-19 EPA/ROLEX DELA PENA

 

Em Portugal, os efeitos da propagação deste vírus não param de crescer. Apenas com duas semanas após o início do nosso desconfinamento, com médias diárias de 300 a 400 infetados e mortos a rondar os dois dígitos e reconhecendo que os estratos da população mais atingidos são grupos de migrantes, minorias étnicas e pessoas que vivem em situação socioeconómica mais precária, a Covid-19 não desapareceu, antes pelo contrário. 

Se bem que a disseminação da pandemia percorre todo o território nacional, com especial incidência na região de Lisboa e Vale do Tejo que, entre 7 e 21 de junho, representava 83,1% de novos contágios, outras regiões como o Alentejo, que até há pouco tempo apenas tinha alguns casos isolados ou o Algarve, apresentam hoje números significativos de infeção pelo vírus. E num momento em que o setor do turismo nacional (representando 12% do PIB português) está a braços com a competição entre vários países pelo destino dos turistas, o aumento dos casos de infeção em Portugal não augura nada de bom para o nosso ano turístico.

Em consequência deste alastramento infecioso, o Governo e as autoridades nacionais de saúde, independentemente das pressões do setor turístico e de outras atividades económicas correlacionadas, afetadas com fortes perdas nos seus rendimentos decretaram, a partir de 1 de julho, que o país vai manter-se em “Estado de Alerta”, Lisboa em “Estado de Contingência” e 19 das suas freguesias em “Estado de Calamidade”, com dever cívico de recolhimento. Além disso, decidiu aumentar em 90% a oferta de transportes públicos, na área metropolitana de Lisboa (medida que já tardava…) e passar a aplicar coimas de 100 a 500 euros e de 1000 a cinco mil euros, para pessoas coletivas, a todos aqueles que não cumpram as normas exigidas à situação em que se encontram as várias parcelas do território nacional.

Especialistas de todos os géneros e, por vezes, de género nenhum (!!!), justificam  o agravamento da situação epidémica argumentando: desconfinámos muito cedo; estamos a fazer muitos mais testes às pessoas; com o recomeço de muitas atividades económicas, os transportes públicos não oferecem condições de segurança, em relação ao distanciamento social exigido aos passageiros; uma parte considerável da nossa população não utiliza máscaras de proteção; estamos no início de uma segunda vaga de infeção viral, ou ainda que muitos extratos da população mais jovem não acatam as normas de protecção, organizando e participando em ajuntamentos com centenas de pessoas que acabam por ser infetadas.

Eu diria que todos têm alguma razão, mas acrescento mais uma que desafia o vulgar discurso considerado “politicamente correto”!…

O facto de a esmagadora maioria do povo português se “ter portado bem”, na primeira fase do combate a esta epidemia, levando os responsáveis nacionais e internacionais a elogiarem o seu comportamento, não se deveu a um ato de consciência coletiva de compreensão e aceitação das medidas e da perigosidade da doença. Fizeram-no por medo! Medo por algo que lhes era inteiramente desconhecido, enquanto enfermidade e medo por represálias ao seu mau comportamento, perante as regras que se estabeleceram.

Assim: face a um risco (mal) calculado de que a doença “só acontece aos outros”; que o comportamento “apenas” persuasivo das autoridades, destinadas a fazer cumprir as regras preventivas, não tinha consequências particulares; perante a confusão gerada por uma certa dose de ignorância científica dos responsáveis sanitários, acerca das medidas a adotar e, por fim, a urgente necessidade económica de muita gente em ter de voltar ao trabalho, o “povo” regressou à sua “normalidade indisciplinada”, com especial referência para os grupos etários mais jovens e desafiadores das normas que se lhes imponham sem que, de vez em quando, alguém “lhes puxe as orelhas”, a situação das infeções provocadas pela Covid-19 deteriorou-se.

Nas atuais circunstâncias, em que “parece” que agora as autoridades passam a dispor de mais meios para penalizar os infratores às medidas de segurança coletiva e pelo que assistimos quando por vezes intervêm para dissuadir os faltosos (recebidos “à pedrada!…”), julgo que coimas (multas), uma ida à esquadra e um apontamento no cadastro, é pouco!

Colocar em risco a sua própria vida, a das suas famílias e a vida da comunidade é crime e um crime desta natureza merece um forte castigo que sirva de exemplo para todos os outros que se julguem imunes a ele.

Por isso penso, sem querer fazer apelo à aplicação indiscriminada de quaisquer medidas ditatoriais, mas presumindo que em democracia não vale tudo, um castigo exemplar aos infratores teria evitado a repetição destes atos de indisciplina e provocação a que vimos continuamente assistindo.

Se estamos a viver um “estado de exceção” que piora diariamente e a saúde da nossa gente, associada à economia da qual também dependemos, são os elementos essenciais à nossa sobrevivência como povo e país, deixemo-nos de pruridos e acabemos com esta bagunça de forma clara!

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