Opinião

Contagem decrescente

Ainda que tenha uma família numerosa, decrete um território pessoal,

 onde ninguém possa entrar sem sua permissão.

Alejandro Jodorowsky

 

Um dos meus irmãos reside na mesma vila que eu. Porque a mobilidade geográfica vai trazendo gente nova a todos os lugares, de vez em quando sou surpreendida por uma afirmação de espanto: “Não sabia que era irmã do Zito!” Na brincadeira, respondo: “Sim, do Zito e de muitos mais!” O “muitos mais” suscita logo a pergunta: de quantos?  De 9, respondo (o ano passado diria 10, número amputado pela partida inesperada de um). Esclareço, no entanto, que se fôssemos todos vivos seríamos 12, filhos do mesmo pai, da mesma mãe, e sem partos de gémeos pelo meio. Ou seja, em 24 anos, a minha mãe teve 12 filhos. É só fazer as contas para concluir do curto intervalo entre todos.

Há logo quem aplauda o facto de sermos uma família muito numerosa, mais alargada ainda com a chegada de sobrinhos e sobrinhos-netos. Alguns afirmam: “Como deve ter sido divertido viverem tantos na mesma casa”! À baila, vêm sempre histórias ligadas a episódios que só acontecem em famílias numerosas. Nascidos e criados em Angola (menos eu que fui de cá), beneficiamos do facto de as casas coloniais terem quintais grandes, proporcionando espaço de sobra para as brincadeiras que, à época, tinham a ver com muito chão: jogo da macaca, escondidas, salto à corda, apanhada, prego ou corridas de caricas. Este último obrigava à criação de pistas, a que o meu irmão João, exímio e criativo construtor de vias rodoviárias de terra batida, acrescentava curvas apertadas, lombas acentuadas e outros obstáculos que tornavam a corrida bem mais emocionante.

O nosso quintal enchia-se com os de casa e dos vizinhos mais próximos. Nós, por sermos muitos, não éramos muito bem-vindos no dos outros. Nunca nos foi impedida a entrada, mas havia toda uma linguagem feita de silêncios que denunciava o desagrado da nossa presença. O nosso quintal tornou-se, assim, o centro de todas as brincadeiras das crianças da nossa rua.

Basta este pequeno apontamento para desencadear expressões de uma manifesta pena por não terem tido uma infância assim. Deixo-os gozar essas imagens saídas da tela das minhas memórias, até que uma das presentes confessou: “Nas minhas cartas ao Pai Natal, anos seguidos insisti no pedido de um irmão, mas nunca me foi concedido”!

A certa altura alguém comentou. “Caramba, mas isso devia ser muita giro!” Interrompo com um seco e categórico “Não” que surpreendeu toda a gente. Instala-se a perplexidade e eu explico. Só na fase adulta, comecei a achar interessante. Quando era criança, ser a mais velha de irmãos que se iam sucedendo com tamanha frequência, significou um assumir de responsabilidades que me roubou a infância e a juventude. Fui obrigada a crescer depressa e vi-me adulta antes do tempo. Tudo isto implica não sair com as amigas de liceu, não participar nos jogos de sedução dos bailes de garagem, muito em voga na época, e ter vergonha, muita vergonha de andar sempre acompanhada de irmãos ainda pequenos. A privação da liberdade, numa idade em que se quer agarrar o mundo, deixa marcas. 

Só mais tarde, tiramos prazer das mesas cheias nas quadras festivas, das viagens em grupo, das férias juntos, das reuniões de família em que aparece sempre alguém que ainda não conhecíamos, e da renovação da família por via das novas gerações que se vão multiplicando. Nessa altura, percebemos o drama de alguns filhos únicos, e a deceção dos que desesperadamente fizeram pedidos ao Pai Natal, de quem não dependia o dom de lhes dar esse brinquedo.

Por circunstâncias várias, também as grandes famílias se desagregam. Um dia começamos a deixar de contar quantos somos, porque é chegada a hora de definirmos o nosso território pessoal, com reserva de direito de admissão.

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