Opinião

Carta aos meus filhos e netos

Meus queridos filhos e netos
“Que esta vos encontre bem de saúde” era como antigamente se começava qualquer missiva. Ainda guardo algumas comigo, e a elas regresso sempre que me entrego a viagens pelas minhas memórias.
Reconhecendo a distância temporal que nos separa também hoje assim começo, apesar de a tecnologia anular o longe em que vivemos. Mas, por não ter qualquer certeza do quanto perdurará, foi para memória futura que decidi escrever-vos esta carta.

Foi a 12 de abril de 2020 que celebrámos mais uma Páscoa. Em confinamento obrigatório, como se uma cerca invisível aprisionasse todas as nossas vontades, mantendo-as num retiro forçado. Se dantes era a fé que nos salvava, agora é a vez de a imaginação e a criatividade de uns quantos conseguirem romper este cordão sanitário, e lembrar-nos que haverá sempre vida para além do cativeiro que nos foi imposto. E foi por via delas que, apesar de proibidos todos os rituais festivos, pudemos assistir:

À descoberta de vizinhança (palavra que há muito desaparecera do nosso léxico) a trocar pedaços de conversas de umas varandas para outras, sem nunca dantes se terem apresentado; à solidariedade de quem, de repente, percebeu partilhar o prédio com idosos a precisar de alguém para lhes fazer as compras e levantar os medicamentos na farmácia; às batidas do coração do bebé da ecografia, que um mensageiro de boa vontade fez chegar aos ouvidos dos avós que não têm e-mail, nem morada nas redes sociais; o maravilhamento do casal, que há anos vivia num espaçoso T4, e só agora descobriu que podia almoçar numa reduzida e esquecida varanda que ganhou outro tamanho; a moradores a cantar votos de muitos anos de vida à menina de cabelo todo branco à janela que, a sorrir, os deixou ir embora sem levar “uma prenda dela” mas, em troca, se despediu com um aceno de gratidão; às velas acesas na noite a substituir os fogaréus que não desfilaram ao ritmo do requiem; às colchas suspensas de varandas surdas à banda que não passou, e cegas ao compasso da procissão que não chegou a sair da igreja; às portas cerradas das capelas, outrora abertas à curiosidade dos que aplaudiam o chão atapetado de pétalas de flores colhidas de madrugada; aos carros a circular de teto aberto, metáfora da boca do sepulcro, por onde em altifalante se anunciava e mostrava Cristo ressuscitado; a missas “drive in”, projetadas em ecrãs de parques de estacionamento, como se de um filme ao ar livre se tratasse, em que Amén se fez refrão nas buzinadelas de carros, transformados em habitáculo de fiéis que nunca desistem; ao agradecimento de um primeiro-ministro de terras de sua majestade que, no momento da alta médica, referiu a nacionalidade de Luís Pitarma, enfermeiro português que velou pela sua vida; aos hinos nascidos da genialidade de músicos a viver em países diferentes, mas unidos pela pauta da esperança; ao folar gratuitamente confecionado por pastelarias de bairro e deixados por gente anónima, à porta de quem precisa de um aroma de forno para lembrar a comunhão do pão partilhado.

Tudo isto me deveria deixar feliz! Mas, humana que sou, ao Senhor peço perdão por ter pecado por pensamentos, atos e omissões.

Por pensar que seria fácil aceitar a vossa ausência. Por me sentar sozinha à mesa, queixando-me da falta que me fizeram, com a vossa fotografia como disfarce do vazio de cada lugar; ter enganado a distância com um brinde erguido ao encontro que não existiu. Por, durante a videochamada, ter omitido que nem tudo estava bem.
Não estava, e doeu muito, porque concluí ser errado dizer que as imagens valem mais que as palavras. Por muito que os ecrãs nos aproximem, nunca uma imagem nos devolverá a força de um abraço ou o calor de um beijo.

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