Opinião

Bye, Bye UK!…

A Grã-Bretanha saiu formalmente da União Europeia! Depois de quase meio século de um casamento muito atribulado por exigências sucessivas dos britânicos, vários adiamentos provocados pelos seus deputados em discórdia e um povo muito dividido quanto à solução encontrada, foi finalmente aprovada a resolução do seu referendo de 2016, que ocasionou uma restrita maioria a favor do Brexit.

A partir de agora e até 31 de dezembro de 2020, inicia-se um longo processo de divórcio entre o UK e a UE, durante o qual as duas partes tentarão negociar as difíceis matérias desta separação que, segundo os mesmas, deverão concluir-se com benefícios para ambas as partes!?…

Neste período de transição, o UK terá de respeitar as regras europeias e continuará a fazer parte do mercado único, embora perca a sua representação em Bruxelas e a sua participação nas decisões que entretanto forem assumidas, sem os seus 73 deputados, comissários ou juízes do Tribunal Europeu.

Não sei se hei-de exaltar a minha satisfação ou infelicidade, por ver formalmente e finalmente resolvida esta separação, a pedido de um dos temperamentais cônjuges, sem que antecipadamente tivessem provado que tal constituísse a melhor solução para o seu próprio povo e para o conjunto dos 27 países que continuarão na UE.

Se há muito percebi que os britânicos se mostraram sempre arrogantes da sua identidade e a desejarem o melhor dos dois mundos (independência face à UE e acesso ao mercado único), dificilmente posso acreditar que, nas negociações que agora vão ter lugar, eles possam obter privilégios em desfavor dos restantes europeus. Na realidade, considero que ambos vão perder!

No caso das negociações correrem mal, a médio prazo a Europa perde um parceiro de peso, no domínio económico e na área da sua própria segurança, para além de outros fatores conjunturais associados ao próprio desenvolvimento do processo de desvinculação. Desvantagens que também se acentuarão no Reino Unido, acrescidas das dificuldades em manter o “reino unido”, face à vontade da Escócia em fazer um referendo interno sobre a sua independência e aos problemas presentes e futuros da Irlanda do Norte, com conflitos latentes entre católicos e protestantes e a imposição das previstas fronteiras físicas com a República da Irlanda do Sul. Se a situação internacional não se complicar mais do que aquela em que se encontra, os vencedores deste imbróglio só serão apurados a mais longo prazo, quando as partes se ajustarem à nova realidade, procurando novos mercados e novas alianças estratégicas, capazes de produzirem resultados que satisfaçam melhor as suas economias e o desenvolvimento do bem-estar dos seus povos.

Se as negociações entre o Reino Unido e a União Europeia correrem bem (??), o que significa dizer que ambas as partes têm de perder equilibradamente alguma coisa, passaremos a ter uma UE com um parceiro atípico o que, no caso de resultar para ambos, pode dar origem a uma nova vaga de países da União, abalados por manifestações nacionalistas, a quererem o mesmo estatuto. O que, na pior das hipóteses, conduziria à inevitável dissolução do formato atual da UE e ao perigo de perder os seus objetivos de paz e prosperidade para todos os seus cidadãos.

A partir de 25 de fevereiro próximo, data em que, em Bruxelas, os 27 Estados-membros irão definir a estratégia de negociação com os britânicos, a União Europeia vai enfrentar um dos seus maiores desafios.

Se para uns é mais um episódio da história desta velha Europa, que sempre conseguiu ultrapassar as suas adversidades, para outros que, não negando o curso dessa mesma história, sobrelevam os enormes custos humanos que tal caminho produziu, sem chegarmos hoje, séculos depois, a um estágio que nos permitisse ter uma visão da Europa e do mundo mais abrangente e mais reforçada da necessária unidade entre todos aqueles que pugnam pela humanização das nossas relações.

É bem verdade que se cometeram enormes erros na construção desta União Europeia, entre os quais a rápida assimilação de vários países com o objetivo único de alargar mercados e descurando a integração dos seus povos no espaço comum em que passaram a viver e nos valores dos objetivos que presidiram à sua constituição. E é também verdade que a retórica dos discursos, considerados “politicamente corretos” das elites dos Estados-membros, ao invés de suscitarem o interesse pelo espaço humano comum, acabaram por salientar a sua vertente economicista, em detrimento da solidariedade intercomunitária, dando lugar a um crescendo da presunção da supremacia das identidades nacionais, vulgo nacionalistas, que hoje proliferam abertamente um pouco por toda a UE e que, em consequência, a tornam frágil perante o resto do mundo.

Erros que não perdoam a atual atitude dos britânicos, mas que tornam todos os outros co-responsáveis pela situação que estamos a viver!..

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