Opinião

As pedras do ofício

Não vemos as coisas como são; vemos as coisas como somos, Anaïs Nin

Quando alguém, ao serviço do Estado Português ou de uma qualquer empresa privada, se candidata a um posto no estrangeiro, coloca-se habitualmente a questão de saber se é ou não importante o putativo candidato estar familiarizado com o lugar, e de que forma isso poderá influenciar o seu desempenho. As opiniões dividem-se: há quem considere ser uma mais-valia, como quem ache que o desconhecimento aguça a curiosidade e ajuda no prazer da descoberta.

A questão levanta-se também para quem concorre a um cargo dentro do próprio país. Se há alguns para os quais é essencial existir uma relação de proximidade, outros aconselham algum distanciamento. Recordemos, por exemplo, que a criação da figura dos “juízes de fora” ou “de vara branca” nasceu no reinado de Afonso IV, precisamente pela necessidade de se exigir isenção e imparcialidade nas intervenções dos magistrados, pelo que se aconselhava serem “de fora” da região onde a justiça seria aplicada.

Sem ter propriamente uma opinião formulada sobre o assunto, admito que existam linguagens cuja descodificação, nem sempre imediata, podem dificultar ou impedir a comunicação. A prová-lo, vou reproduzir um episódio relatado por uma amiga, e que reputo de verdadeiro.

Ela é médica, vivia na zona de Azeitão e fora colocada no Hospital de Setúbal, na altura em que este caso ocorreu. Numa das longas noites de banco, com a sala de espera a abarrotar de doentes, foi dando conta da urgência de cada situação, juntamente com outra colega em início de carreira, e que não era da região. Entre os vários pacientes atendidos, há sempre quem busque o hospital para fazer do médico o confidente à mão. Queixam-se das dores, do mundo, da vida, da família e de tudo o mais que possa prolongar os desabafos que enganam o mal da solidão.

Nem todos os médicos, ao fim de muitas horas de consultas, têm paciência para os ouvir, embora reconheçam, logo no início do atendimento, tratar-se de pessoas muito carentes de conversa.

Despachados os casos mais urgentes e prioritários, e precisando ambas de uma pausa, foram tomar café. A colega da minha amiga não se conteve, e atirou de rompante, abanando a cabeça para espantar o que acabara de ouvir:

– Nem imaginas como era a doente que acabei de atender!

– Então?!

– A mulher tinha tudo e mais alguma coisa… Mais uma daquelas coitadas que tem as doenças todas. Calcula tu que, para além de tudo o resto, só pedras… tinha no rim, na vesícula, na bexiga e ainda no livramento! Aquilo não era uma mulher, mas uma pedreira! Eu nem perguntei a que é que ela chamava o livramento, com medo que me desse uma explicação muito longa, e eu nunca mais acabasse a consulta. É que os charrocos usam umas expressões muito próprias, e eu nem sempre os entendo.

A minha amiga há muito esboçava um sorriso que tinha vontade de transformar em gargalhada, mas conteve-se até que a colega desse por finda a confidência que lhe aliviaria a tensão das consultas. Só depois perguntou:

– Diz-me uma coisa, tomaste nota da profissão, por acaso a senhora é peixeira?

– Sim, mas o que é que isso tem a ver?

– Está explicado! – respondeu, soltando agora a gargalhada aprisionada no sorriso. – Olha que ela tem mesmo pedra no livramento!

Perante o espanto da colega, continuou:

– Livramento é o nome do Mercado Municipal de Setúbal, e ela deve ter lá uma banca de peixe, de pedra!

Claro que, logo de seguida, havia mais gargalhadas no ar, acompanhadas da satisfação de ter ficado deslindado o equívoco. Porque o universo da linguagem está muito para além do limitado mundo do nosso ofício.

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