Opinião

As estátuas falam?

As recentes manifestações contra o racismo, que se têm sucedido um pouco por toda a parte e que não raramente acabam em tumultos entre os manifestantes e as polícias locais, atingiram uma nova fase de protesto contra as estátuas que, em lugares públicos, homenageavam figuras que se notabilizaram no seu tempo e que, segundo os manifestantes, por terem assumido posições racistas no decurso da história dos respetivos países.

Estátuas arrancadas dos seus pedestais, manchadas com tinta ou com inscrições denunciantes, passou a ser uma forma complementar dos protestos de alguns populares, ao mesmo tempo que o movimento contestatário pretende reescrever a “verdadeira” história dos países, dando lugar aos seus “autênticos heróis” do passado, ou seja, aos resistentes à escravatura negra, entre outras populações segregadas.

É bem verdade que, na maior parte das sociedades de maioria branca, os monumentos a figuras que se distinguiram na sua respetiva história simbolizam os vencedores e protagonistas de atos que mereceram relevo nessas sociedades e o propósito de serem evidenciados serve para eternizar a sua memória junto das gerações que se sucedem. Se uma parte das populações não consegue identificar os factos que deram origem aos reconhecimentos nacionais desses símbolos, outra parte, pelo seu conhecimento histórico, reconhece esses heróis do passado, sem se questionar sobre se a manutenção dessa simbologia se justifica atualmente, face a um mundo que progrediu para um conjunto de valores tão distintos e críticos daqueles que imperavam nas sociedades anteriores. Assim, uns e outros cidadãos, pouca importância davam à existência dessas figuras inertes que pululam os nossos jardins e parques citadinos, considerando-os personagens de uma época distinta da atual. No entanto, um mórbido acontecimento entre um polícia norte-americano e um cidadão negro nos EUA desencadeou uma violenta sacudidela opositora à preservação desses símbolos, ditos conotados com ideais ou atitudes racistas, decidindo excluí-los da sua exposição pública, mas, ao mesmo tempo, incapaz de o fazer da nossa memória histórica, na medida em que foram personagens reais da mesma. E a história, tal como a concebo, é feita de factos!

Embora compreenda os motivos que lhes estão subjacentes, mas sem compreender o que é que esta atitude demolidora da própria história pode contribuir para extinguir as manifestações de racismo que persistem nas nossas sociedades, é sobre qualquer atitude de revisionismo histórico, apagando o passado das sociedades ou substituindo os seus atores por sujeitos não criticáveis nos dias de hoje (para o que parece evoluir este movimento anti-racista), que eu não posso deixar de condenar, em nome da verdade histórica. As sociedades precisam de reconhecer o seu passado, por muito condenável que, de acordo com a moral e os princípios atuais, possam ter sido alguns dos seus personagens que hoje, em bronze ou em pedra, são arrancados dos seus pedestais.

O debate sobre os antecedentes que conduziram os povos até aos dias de hoje não pode ser expurgado da factualidade histórica sob pena de, no presente, os povos se sentirem órfãos do seu passado e descaraterizados perante o seu futuro.

Não se pode avaliar o comportamento histórico de séculos passados através de uma matriz da análise submetida às normas e valores dos nossos dias, tal como, com a nossa atual consciência, não se deve deixar de evidenciar e criticar os crimes sociais cometidos no passado ou eternizar os seus autores, distinguindo no presente as figuras que os cometeram. Assim se torna compreensível a evolução histórica das sociedades e a escala de valores temporais a que foram e são sujeitas.

É evidente que, para que a história das sociedades ocidentais, maioritariamente brancas e no quadro desta dicotomia rácica, entre brancos e negros, pudesse ser mais perceptível ao comum dos cidadãos, tornava-se essencial complementá-la e reforçá-la com outros atores sociais dos contrapoderes existentes em cada época, realçando o papel desempenhado pelos líderes e movimentos anti-racistas que, ao longo dos tempos, resistiram à escravatura e à segregação racial (tal como Martin Luther King Jr., Rosa Parks, Abdias Nascimento ou Nelson Rolihlahla Mandela), expondo-se ao seu sacrifício pessoal e coletivo, em nome da igualdade entre todos os seres humanos. De facto, destacar apenas alguns intervenientes (nomeadamente de cor branca) que se notabilizaram no decurso da história das sociedades, enquanto promotores de ideais racistas, sem referir os resistentes negros que, forçados ou voluntariamente, contribuíram para o progresso das mesmas, é uma forma de erradicação da população negra dos seus contributos para o progresso social e um fator de destruição da sua dignidade e auto-estima.

Mas, neste momento, falamos de história, não da sua origem, nem das conceções interpretativas, individuais ou coletivas, que o racismo sugere. E a história dos povos e das suas sociedades, boa ou má, é aquela que foi construída pelos nossos antepassados e da qual somos o seu produto. Se não soubermos contextualizar a apreciação de alguns episódios históricos, podemos atualmente envergonharmo-nos de alguns aspetos do passado da nossa história, que eles não deixarão efetivamente de pertencer ao percurso da mesma.

Razão pela qual toda a simbologia representada pelas estátuas “fala”! Fala enquanto representação de pedaços de história, mas não dizem tudo o que é preciso saber para a compreender!

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