Opinião

Analfabetos de emoções

Somos analfabetos emocionais. (…) sabemos fórmulas matemáticas de cor e salteado, 

mas não nos ensinaram nada sobre nossas almas.

Cenas de Um Casamento, de Ingmar Bergman

 

Estamos em maio, mês de Maria, mãe de Jesus, mas também de todas as outras mães que, no primeiro domingo, foi celebrado em Portugal e, uma semana depois, no Canadá.

No meu caso, é também o mês em que perdi a minha, precisamente no dia de hoje, quando perfaz 30 anos que, inesperadamente, me deixou. E reforço “inesperadamente” porque nunca a vi de cama, nunca se queixou de qualquer maleita, exceto, uma vez por outra, de uma dor num braço, que disfarçava com movimentos circulares para nos convencer de que tudo estava bem. Apenas lhe notei uma certa tristeza quando, na altura das partilhas e, tirado um papelinho à sorte como dantes se fazia, lhe calhou um terreno pelo qual não sentia nenhuma afeição, em vez de um outro que lhe era particularmente querido. Por isso, quando deu entrada no Hospital de Lamego, não estava preparada para qualquer outro desenlace que não fosse o tratamento às dores abdominais de que se queixara. 

Após a vista breve que eu, meu pai e uma irmã lhe fizemos, tivemos de sair porque ela seria levada para um exame. Sem despedida, ficámos na sala de espera até que voltasse. Pouco tempo depois, senti um jipe entrar, travar de repente e, de dentro, saltar um homem que entrou desalvorado pelo hospital adentro. Era o médico com quem havia antes conversado, mas não fazia ideia nenhuma da razão de tanta correria. Não tardou a entrar na sala e a fazer-me um sinal. Havia que poupar meu pai, e eu era a mais velha para aguentar com aquela pancada seca e fria que a notícia exige.

Lembro-me de o abraçar e gritar vários “nãos” como se a repetição do advérbio pudesse fazer o milagre da ressurreição. Meu pai e minha irmã entraram, depressa se apercebendo que o médico do jipe era o mensageiro da notícia que nunca imagináramos ouvir.

Poucas vezes voltei à casa da aldeia, em cuja sala se velou o corpo de minha mãe. Das poucas em que lá fui, senti que nada preenchia o vazio que ela deixara. Após os dias em que fiquei para tratar de toda a burocracia, trouxe o meu pai comigo. Quantas vezes lhe invejei a fé que lhe permitia aceitar a morte dela como a vontade de Deus. Ouvia-o dizer: “Se Deus ma levou é porque Ele acha que tenho de cá ficar mais tempo a expiar os meus pecados”.

Por respeito à sua dor muda, também eu me calava, apesar de nunca ter aceitado tal argumentação. Meu pai, católico praticante, citava muitas vezes o apóstolo Mateus, para nos falar do “Sinal do Fim dos Tempos”. Naquela altura, comecei a pensar que também aqui os sinais haviam existido, mas nós não os soubéramos ler. Meses antes, minha mãe preparara tudo: organizou os armários da cozinha e os roupeiros, verificou o estado das bainhas das calças, dos botões e dos colarinhos das camisas de meu pai. Ambos visitaram os filhos, ficando uma semana aqui outra ali, conforme o sítio onde viviam. Visitas breves, como aves de curtos voos que depressa regressam ao ninho.

Uma trombose na mesentérica foi o diagnóstico averbado na certidão de óbito que provocou o regresso a casa em vestes de madeira. Passados trinta anos, ainda dói saber que estive com ela uns momentos e, momentos depois, já não a ter e ter ficado tanto por dizer. 

Após a morte de meu pai, raramente vou à aldeia, mas, quando o faço visito a campa, e deixo-lhes o ramo das minhas conversas, embora saiba que já não são as que eles gostariam de ouvir. Na despedida, beijo as fotografias da lápide num adeus como de cada vez que os visitava em vida.

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