Amélie Bonsart

Em homenagem ao arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles

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Foto: DR

Faleceu, há poucos dias, um dos arquitetos mais acarinhados em Portugal.

Gonçalo Ribeiro Telles, conhecido como o autor de projetos muito relevantes em Lisboa, tal como os Corredores Verdes ou os jardins da Fundação Calouste Gulbenkian, formou-se em Agronomia e Arquitetura Paisagista em 1950, no Instituto Superior de Agronomia, tendo desempenhado diversos cargos políticos e participado na fundação de instituições no panorama da cultura nacional.

Enquanto profissional, Ribeiro Telles projetou jardins privados e públicos, parques, corredores verdes, implantação de rodovias, recuperação de pedreiras, recuperação de quintas de recreio, integração paisagística de unidades fabris e ordenamento rural e do território. Da escala mais pequena à maior, o arquiteto sempre encontrou razão e motivação para intervir no ambiente.

Em 2013, Gonçalo Ribeiro Telles foi distinguido com o “Nobel” da Arquitetura Paisagista – o Prémio Sir Geoffrey Jellicoe – que lhe seria atribuído em Auckland, na Nova Zelândia, pelos profissionais do setor, reunidos na Federação Internacional dos Arquitetos Paisagistas (IFLA). Este prémio revelou-se muito importante, pois foi o reconhecimento da sua obra e do seu impacto no bem-estar da sociedade e do ambiente. Para além do mais, contribuiu enormemente para o enaltecimento da profissão.

Mas não só figura pioneira na arquitetura paisagista em Portugal foi Ribeiro Telles, foi também alguém cuja carreira se destacou na cidadania, ecologia, academia e política.

Mais ainda. Ribeiro Telles foi meu professor.

E enquanto aluna, devo dizer, que tinha ainda muita dificuldade em verbalizar e organizar muitos dos meus pensamentos acerca da forma como percecionamos a nossa relação com o meio, a natureza e a paisagem.

E foi ali, naquelas aulas, naquelas manhãs em Belém, que ouvimos as mais tocantes lições sobre o tema. A paixão com que falava, a paciência e a calma que demostrava, tornava-nos mais preocupados com a paisagem.

Foi ali que compreendi a necessidade do arquiteto se posicionar e intervir no meio. Que a preocupação deste entendimento não era meramente racional, mas um tema de consciência, de sensibilidade e de emoção.

Foi naquelas aulas, que aprendemos que o rio racional e o rio emocional do nosso espírito, se cruzam num momento crucial, dinâmico e estático simultaneamente, onde permanece a fonte da ação humana, e que Professor Ribeiro Telles nos dizia ser, o cruzamento dos quatro rios do paraíso, o símbolo máximo da paisagem, contida do horto e humanizada da forma mais simples e honesta.

Sim, foi ele que nos colocou no centro do horto, do pátio, do nosso racionalismo e emoção e nos fez compreender que o mundo físico é o que dele construirmos e que ele nos sugerirá o que o nosso mundo metafísico pode ser, humildemente em equilíbrio.

Sim, foi ele que nos levou por diversas vezes ao Jardim da Gulbenkian, “viver” e percecionar o poder da intervenção do Homem. A sua importância, por assim dizer.

E por ser este homem tão especial, do Presidente da República à ministra da Cultura, todos foram unânimes em considerá-lo como um “ilustre defensor da causa pública ambiental”.

E muito bem, decidiu o governo, decretar dia 11 de novembro, dia de luto nacional.

Para mim será sempre, o meu querido professor.

Um até já, Mestre. Foi um privilégio.

Amélie Bonsart/MS

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