Aida Batista

Uma outra ressurreição

Eu sou a Ressurreição e a vida. - João 11:25-26

À medida que o Domingo de Páscoa se aproximava, a maior mudança que se operava nos nossos quotidianos seria não sermos obrigados a não comer carne à sexta-feira, ritual que se cumpria religiosamente durante toda a quaresma. Na nossa casa, dominada por pais profundamente católicos, era um dever que não se quebrava, a menos que alguém, doente, estivesse a caldos de galinha.

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Créditos: DR.

Cumpríamos esta obrigação com a indispensável noção de sacrifício que os nossos pais nos tinham incutido desde crianças, tal como a reza diária do terço à noite em família e a oração antes do início das refeições. Assim, a Páscoa era a linha da meta que estabelecia o fim da abstinência. Claro que o peixe se mantinha às refeições, durante um ou outro dia da semana, mas sem a obrigatoriedade de lhe ser destinado um dia próprio, que é o que, normalmente, desencadeia os automatismos da rejeição. Hoje, prefiro o peixe à carne, mas é um dado adquirido que a maioria das crianças prefere a carne ao peixe.

Na quadra Pascal, o dia mais importante, em termos de práticas religiosas, era a Sexta-feira Santa, destinada à oração, silêncio e penitência, dedicados à memória da paixão e morte de Cristo. Recordo a forma como os meus pais respeitavam esse dia e nos levavam à igreja mergulhada em aromas de incenso, para assistirmos à cerimónia de Adoração do Santíssimo Sacramento, exposto na Custódia, tendo como fundo as vozes do coro a entoar o Tantum Ergo, cântico sublime de adoração.

Se a memória não me falha, a igreja ficava aberta até muito tarde, com o Santíssimo exposto, para que aqueles que não tivessem podido participar durante o dia, pudessem noite dentro prestar homenagem Àquele que tinha dado a vida por nós.

Por vivermos em Angola, e serem as temperaturas muito altas nessa data festiva, o Domingo de Páscoa quase sempre era passado na praia, em família, sendo a ementa do almoço uma suculenta caldeirada de cabrito. Os meus irmãos levavam com eles o folar e as amêndoas oferecidas pelos padrinhos, enquanto eu, tendo apenas padrinho (a madrinha vivia em Portugal) sentia que ficava sempre em desvantagem.

Depois destas páscoas da minha infância, outras se sucederam moldadas no mesmo modelo, mas acrescidas de práticas que só passei a conhecer no meu país de origem, quando ia de visita à aldeia para a passar com os meus pais, que nunca se ausentavam de casa nesta época do ano. Meu pai era perentório: “Eu não fecho a porta ao Senhor!”

No Norte de Portugal, ainda se mantém a tradição de, na chamada segunda-feira da Pascoela, o padre levar a cruz a beijar a casa dos paroquianos, acompanhado de acólitos que transportam a caldeirinha, onde o padre mergulha o hissope com que asperge a água benta sobre os elementos da família, abençoando a casa. Em cima da mesa, está normalmente um envelope com a côngrua, contributo para as despesas anuais da igreja, quase sempre equivalente ao valor de um dia de trabalho. Além desta contribuição monetária, podiam também ser recolhidas ofertas em espécie, tais como: azeite, folar, ovos, laranjas e outros, consoante as posses de cada um.

Com a pandemia, não teremos celebrações litúrgicas, nem tão pouco a maioria das famílias se poderá reunir, devido à proibição de atravessar concelhos. Perante este cenário, não se repetirão festividades, tal como as conhecíamos e a maioria de nós viveu.

Todos ansiamos que as nossas vidas voltem ao normal, depois de um ano, meses e dias em que ela nos foi negada. Por isso, aquilo que mais desejamos é que, por um qualquer milagre de ressurreição, consigamos, à semelhança de Cristo, sair da prolongada solidão do túmulo em que há demasiado tempo este vírus nos encerrou.

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