Aida Batista

Um presente Pr’ámérica

Quem já viveu fora do país, em lugares onde exista uma forte presença portuguesa, teve o privilégio de poder recolher histórias ligadas à relação de viver entre dois mundos sempre que os códigos de ambos lhes sejam estranhos.

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Créditos: DR.

Uma aluna minha, de férias em Portugal, precisou de ir a um posto dos correios despachar uma encomenda. Na época, ainda não se vendiam aquelas caixas espalmadas de vários tamanhos. Por isso, ela meteu a encomenda numa caixa de papel, embrulhou-a em papel pardo e, por uma questão de segurança, colocou fita cola nas ponta das dobras. Desconhecia a prática de usar um cordelinho cruzado à volta da encomenda, que terminava com nós bem apertados. Ao ver a fita cola, o funcionário confrontou a cliente com a seguinte observação:

– Menina, tem de colocar aqui e ali uma rubrica.

A palavra rubrica ainda hoje se usa, mas está reservada a certos documentos (contratos, empréstimos), constituídos por várias folhas, que devem levar no canto superior direito a dita rubrica de todos os intervenientes.

Quem emigra, além de perder o contacto com vocabulário que nunca usou antes de sair, nem sempre precisa de o utilizar no país de acolhimento junto dos seus conterrâneos. A jovem, voltando-se para o funcionário, perguntou:

– E onde é que posso comprar?

O funcionário, perdido no meio daquele diálogo, respondeu:

– Comprar o quê, menina?

– Isso que o senhor disse!, sem conseguir repetir a palavra ouvida pela primeira vez.

Só então o funcionário percebeu que ela não tinha a menor ideia do que era uma rubrica. Solícito, explicou-lhe que teria de fazer as assinaturas que a responsabilizavam por ter entregado o embrulho naquelas condições.

Lembrei-me deste episódio porque, na passada semana, quis enviar um livro para um amigo que vive nos Estados Unidos. Comprei o envelope almofadado e, depois de preencher os espaços do remetente e do destinatário, entreguei-o ao funcionário. Reparo imediato:

– Agora não é assim. Saiu uma nova lei em janeiro – não sabia? – e tem de fazer isto on-line.

Perante o meu espanto – não, não sabia –  explicou-me que teria de entrar no “site” dos CTT que, depois de preencher o formulário com os dados pedidos, me enviaria um código por e-mail. Só com esse código ele poderia despachar o livro. Nestas alturas, a interioridade de que tanto nos lamentamos tem as suas vantagens. Como não havia mais ninguém em espera, sugeri-lhe a hipótese de ligar os dados móveis do meu telemóvel para que ele me pudesse ajudar. Passo a passo, e sob o seu olhar vigilante, fui seguindo as instruções, até chegarmos aos elementos do destinatário. Além do nome e da morada, havia um campo para o telefone e o e-mail, de preenchimento obrigatório porque lá estava o asterisco a exigi-lo.

Tinha uma vaga ideia de ter o telefone na minha agenda de papel. Procurei-o e lá estava, mas, em espera, o ecrã do meu telemóvel já havia ficado a negro. Voltei a ativá-lo. Não sabia o e-mail de cor. Lembrei-me que estaria na caixa de correio do telemóvel. Já com tudo adiantadinho no meu ecrã, quando cliquei no ícon “retroceder” desapareceu o formulário. Ou seja, consegui o e-mail, mas tive de reiniciar todo o processo, com a lentidão que carateriza quem sofre de iliteracia digital. Terminada a tarefa, cliquei em submeter e aguardei pelo código. Momentos depois, um plim anunciou a sua chegada. Dei-o ao funcionário e, a partir daí, ele pôde concluir o despacho do livro.

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Feitos os agradecimentos, a despedida e a conversa oficial, iniciei uma outra comigo, perguntando-me quantos anos separavam o tempo do cordelinho do da inscrição obrigatória no “site”. Sem resposta, concluí que cada vez será mais difícil enviar um presente pr’Ámérica.

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