Aida Batista

Os cabos dos sonhos

“Pelas costas de um homem se sabe da sua vida: a quem se curvou, que raivas guarda, que sonhos dobra.” - Mia Couto

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Crédito: DR.

Angústia, ansiedade, cansaço, exaustão, desmotivação, desânimo, insegurança, medo, são palavras que, segundo a nomenclatura gramatical aprendida nos verdes anos do colégio, se designam por substantivos abstratos. Para facilitar a compreensão e os distinguirmos dos concretos, dizia-nos a freira que eram nomes de coisas que não podíamos tocar ou ver porque não tinham existência física.

Cresci com esta convicção, embora, com o decorrer dos anos, e ao entrar noutras categorias gramaticais, me começasse a questionar sobre a imutabilidade de determinadas classificações. Cheguei aos provérbios, aforismos e máximas, e um deles chamou-me a atenção: “Os olhos são o espelho da alma.” Acumulara saber suficiente para distinguir a diferença entre sentido literal e figurado, e não andei à procura de almas nas meninas dos olhos de cada um de nós.

Arrumada a figura de estilo, facilmente percebi que os olhos são os mais fiéis transmissores do nosso estado de espírito, mesmo quando o esgar de um sorriso tenta, mas sem sucesso, atraiçoar o mensageiro. E não há máscara que o disfarce, por muito que alguns se escudem neste acessório que padronizou rostos, não fora uma ou outra marca identitária a denunciar-nos e a devolver-nos ao mundo dos amigos e conhecidos. A minha, e inconfundível, é a voz, como tantas vezes me disseram, muito antes da prática da etiqueta respiratória.

Vivemos tempos em que o espelho da alma já não são apenas os olhos. Forçados a ficar em casa e a não ter quem os leia, como se fossem uma biblioteca fechada, começaram a sair do rosto de cada um, numa tentativa de fazer passar mensagens, nem sempre explícitas, por outra via cuja senha nem sempre é fácil de descodificar. É preciso estarmos muito treinados no código da amizade para, em jeito de adivinhação, conseguirmos decifrar as diferentes camadas dos desabafos, escritos sob a forma de telefonemas, ainda que curtos; e-mails enigmáticos; imagens com frases simbólicas no Facebook, ou simplesmente no silêncio da solidão dos dias, de olhos fechados, para que ninguém lhes leia a alma. Temos de estar atentos à cegueira a que estes últimos se entregam.

Faz este este mês um ano que, logo após a realização das Correntes d’Escritas, se soube que o escritor chileno Luís Sepúlveda estava infetado. O desfecho final todos conhecemos, mas o que não poderíamos imaginar era que, um ano depois, estaríamos a viver a clausura de um novo confinamento, em vez da antonímia dos abstratos com que inicio este texto. Pelo contrário, esgotámos já as entradas de todos os sinónimos que o dicionário do desespero guarda na lombada da impaciência.

E o salto, que do pátio do colégio dei até hoje, diz-me que há uma idade para pormos em causa as categorias gramaticais que demos como adquiridas, porque os substantivos abstratos passaram a concretos. Não é possível continuar a dizer que se referem a nomes que não podemos tocar nem ver. Pelo contrário, eles ganharam corpo, forma física e estão bem visíveis à nossa frente: na tristeza dos olhares embaciados dos velhos, pela falta de visitas de quem lhes possa dar uma palavra e um gesto de carinho; no inconformismo das despedidas daqueles que necessitam de internamento, por adivinharem ser uma partida sem retorno na solidão de uma morte anunciada; na resignação das esperas dos que recebem pais, mães, avós, devolvidos em urnas, sem direito ao boletim do adeus que fecha o ciclo da vida para se poder fazer o luto; na exaustão dos que na linha da frente cerram fileiras para salvar, nas trincheiras da sobrevivência, os que resistem aos ataques da enfermidade.

Nada disto é abstrato, para quem há mais de um ano, à bolina da raiva, navega neste mar de impotência de não conseguir dobrar os cabos dos sonhos.

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DR.

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