Aida Batista

O Tamanho das Vozes de Antanho

Quando fui convidada para, como oradora, participar num ciclo de atividades da “Comissão das Migrações” da Sociedade de Geografia de Lisboa, em parceria com a Associação Internacional de Paremiologia, cuja atividade recai sobre o estudo e divulgação dos provérbios, a minha primeira reação foi declinar o convite, por esta matéria não fazer parte da minha área de formação. Depois aceitei, porque, independentemente da formação que cada um de nós possa ter, os provérbios fazem parte das nossas vidas, incorporando-se na linguagem com que, a partir de certa idade, começamos a entender o mundo que nos rodeia.

Os provérbios nascem da sabedoria popular e da sua mundividência sobre os fenómenos naturais, comportamentos grupais e individuais de uma determinada época, que se prolongam no tempo e se ramificam por diferentes geografias. Assim, quando me pediram um título para a comunicação, aquele que me surgiu foi “O Tamanho das Vozes de Antanho”, entendendo-se aqui o “tamanho” nas suas dimensões de tempo e espaço, e, antanho, não só pelo seu significado, mas para completar a rima, uma das caraterísticas dos provérbios.

O Tamanho das Vozes de Antanho-portugal-mileniostadium
Créditos: DR.

É por eles terem origem em tempos imemoriais que obedecem à arquitetura da literatura oral, que assenta na facilidade de memorização. Por isso, quase sempre nos aparecem constituídos por um par de frases que, obedecendo a uma rima, criam um ritmo que os torna  fáceis de decorar. Quando a rima falha, recorre-se a outras figuras de estilo, como é o caso da aliteração (repetição de sons), igualmente eficaz nos complexos mecanismos da memória.

Estes e outros recursos linguísticos vão-se mantendo ao longo do tempo, mesmo quando a oralidade dá lugar à escrita, eterna guardiã de todo o património oral. Por ter em conta a ancestralidade destas vozes, chamei-lhes de “antanho”, palavra que hoje, e ao contrário dos provérbios, quase cai na categoria de arcaísmo por falta de uso.

Torna-se praticamente impossível atribuir uma certidão de nascimento, bem como uma qualquer paternidade aos provérbios, tal a transversalidade com que atravessa as várias épocas e chega até nós na sua forma original, mesmo quando as realidades que traduzem os conceitos já não existem. Quer dizer que, mesmo que o tempo histórico mude, não muda a estrutura semântica, porque o conceito que o provérbio veicula, esse, mantém-se intemporal, e a intemporalidade é a sua força maior.

A origem popular dos provérbios e a sua ligação à agricultura e à pecuária, tem a ver com o facto de o homem ao deixar de ser recoletor, se ter fixado, criando núcleos de povoamento, em função da fertilidade das terras.

O Tamanho das Vozes de Antanho-portugal-mileniostadium
Créditos: DR.

Em face desta tão grande dependência da natureza, aprendeu a desenvolver e a apurar os sentidos: a saber observar o céu, a olhar os astros, a cor das nuvens, o encurtamento e o crescimento dos dias, fazendo das horas de sol o seu relógio; a medir a intensidade das chuvas, para saber se o ano ia ser de seca ou de abundância de água;  a ouvir a direção e a força do vento, distinguindo o suão da nortada; a sentir os cheiros dos frutos maduros prontos para serem colhidos.

Aprendeu ainda a ler a natureza dos solos, a importância das nascentes, a proximidade dos rios e dos mares, transformando-se em” borda d’água”, muito antes do almanaque existir. É deste “saber de experiência feito” que nascem todos os provérbios ligados às sementeiras, às colheitas, aos meses adjetivados do ano, aos nomes de santos, sem nada saber de meteorologia, de geografia, de geologia ou de astronomia.

Se os provérbios atravessaram tempos, também viajaram pelos espaços dos vários continentes, levando na bagagem os mesmos conceitos mas vestidos de uma roupagem diferente.

Para terminar, deixo o provérbio que mais se adequa à indecisão de quem não sabia muito bem como cumprir um pedido que lhe fora feito: “Quem escreve, seu mal prescreve”.

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