Aida Batista

Habitat

"Lar é onde está o coração". - Plínio, o Velho

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Crédito: DR

No passado domingo, fazia a minha habitual caminhada quando o telemóvel tocou. Era uma amiga a dizer-me que, às duas da manhã, me tinha visto na televisão. Percebi logo que se tratava de um programa, em que participei há anos, que abordava questões ligadas à e/imigração. Informei-a que havia sido feito há bastante tempo, embora não me recordasse da data, e que a RTP1 o exibia de vez em quando. Movida pela curiosidade, fiz a busca e fui revê-lo. Faz este ano 10 anos, sem que o tema tenha perdido atualidade.

Há uma década, recebi uma chamada para ser entrevistada no Porto. Quando lá cheguei, pensei que a morada estava errada, já que me deparei com um prédio em construção: paredes de tijolo e cimento à mostra, pilares de betão, e a escada, que tivemos de subir, sem qualquer proteção lateral. O local, onde estava instalado todo o equipamento para a gravação, tinha uma parede decorada com molduras de vários formatos e estilos. Achei interessante e perguntei porquê? A jovem que me iria entrevistar explicou-me que, depois de ler um texto meu, se tinha deparado com a importância que havia dado às molduras. Ou seja, o local das entrevistas seria o mesmo para todos os entrevistados, mas o cenário mudaria em função daquilo que havia sido captado da alma de cada um.

Nunca mais havia pensado na questão das molduras, mas, desta vez, senti vontade de ir à procura delas no texto do meu “Passaporte Inconformado”. Encontrei-a na crónica que dediquei a uma exposição de fotografias emToronto, na sessão inaugural das cerimónias que celebravam os 50 anos da chegada oficial dos portugueses ao Canadá. Levei uma turma de estudantes – alguns descendentes dos pioneiros – que identificavam lugares, pais, avós, familiares e conhecidos.  Nessa altura, percebi que aqueles rostos tinham ganhado vida e estavam ser transportados para um tempo e um lugar que, apesar da distância, moravam na memória dos que neles se reconheciam.

Escrevi, então: “A moldura não é apenas um remate decorativo da reprodução de um momento daquerriotipado a preto e branco. Ela fixa um pedaço de História, estabelece-lhe uma fronteira que avança e recua conforme o tamanho do sonho vivido; dá voz aos silêncios verbalizados em gestos de ternura; demarca as fronteiras da saudade de um tempo em que partida rimava com despedida e deixava uma ferida por sarar. A moldura segura a água do mar do verbo que, ousado, quis ir mais longe e conhecê-lo por dentro, passando a conjugar-se emigramar.”

Também não voltara a pensar na simbologia do cenário escolhido e, sem nunca ter voltado a falar com a realizadora, penso que hoje entendo melhor a intencionalidade de ter sido escolhido um prédio inacabado, tanto mais que o documentário começa com uma citação de Plínio, o Velho – “Lar é onde está o coração”. Se uma casa é feita de paredes em construção, o lar é o espaço onde, à semelhança de Penélope, se tecem os laços afetivos de quem o habita, trama diariamente urdida com fios de diferentes texturas, consoante os borbotos que escapam à dobadoura da roca da vida. Contrariamente ao erguer das paredes, escoradas numa planta onde não faltam os cálculos de engenharia que lhe ditam a segurança,  o lar resulta do trabalho de equilibristas, que, movendo-se num trapézio suspenso, sabem dar as mãos para evitar as quedas desamparadas.

O título “Habitat” foi também bem escolhido, se atendermos à etimologia da palavra – 3ª pessoa do singular do presente do indicativo do verbo “habitare” -, que nos remete para as condições relacionadas com o viver num determinado espaço, cabendo a cada um de nós fazer dele casa ou lar, segundo o material que usarmos nos acabamentos da sua construção.

• Leia as crónicas da Aida Batista, clique aqui.

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