Aida Batista

Celebrar o Dia de Todos os Santos

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Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória. – José Saramago

Terminei mais um bloco da minha diarística, o que, por mera coincidência, aconteceu no último dia de outubro. Iniciei outro e, ao colocar a data no canto superior esquerdo do texto que irei iniciar, dou-me conta de que não se trata apenas do primeiro dia do mês de novembro, mas do Dia de Todos os Santos. Por ter calhado a um domingo, não demos pelo feriado, mas, mais importante do que ser feriado, é o facto de ser o dia do aniversário de minha mãe – dia de uma saudade imensa, que tanto dói por tão nova ter conhecido a orfandade.

Quando a vida parecia dar-lhe uma maior disponibilidade para poder começar a tirar partido dos pequenos prazeres da vida, foi-se, como se tivesse cá estado apenas com uma missão – parir uma enorme prole, vê-la crescer, dar-lhe asas e, depois desta acomodada ao seu próprio ninho, deixá-la voar. E tudo fez a seu tempo, sem qualquer urgência, sem pressa, porque calma e silenciosa fora a sua maneira de estar na vida. E o tempo chegou-lhe, como se soubesse que só poderia partir depois de deixar tudo feito.

Andou de casa em casa – atravessando geografias do norte a sul – numa romaria de visitas aos filhos para aliviá-los das tarefas diárias (algumas suspensas da sua ajuda) e da organização dos espaços, feita fada do lar, mas sem varinha mágica que desencantasse milagres depois de cada toque. Cumprida a travessia, voltou à sua casa, ao seu ninho, e também aí se organizou, antecipando a primavera das limpezas. Arrumou armários e gavetas, deu uma volta às roupas à cata das pequenas costuras – bainhas que se soltam, botões prestes a perderem-se porque presos por uma linha, fechos que emperram e deixam de deslizar por entre os dentes de metal, lençóis e toalhas que, por força do uso, mostram pedaços puídos a clamar por serem passajados, meias com malhas soltas a precisarem de uma agulha de croché que, com uma puxada, as devolva ao lugar. No jardim, vasos cuja terra carecia de ser mudada ou canteiros que reclamavam pela mudança das espécies.

Parecia que cumpria a velha máxima que tantas vezes repetia aos filhos: “Sabemos como saímos, mas nunca sabemos como voltamos”. E assim passava a mensagem de que uma casa deveria estar sempre arrumada, não fosse algum percalço confrontar-nos com um regresso inesperado ou não haver sequer regresso. E foi o que aconteceu. Saiu queixosa, com dores, sem saber como voltaria. Deu entrada no hospital de Lamego, nunca imaginando que poderia não voltar. Mas voltou, sem vida, amortalhada num lençol branco, feita múmia, como se diz em linguagem hospitalar. Mas tinha a casa limpa e toda a vida doméstica preparada para a receber, sem pressas nem urgências, como se fora dona do tempo. E foi na sala arrumada que se fez o velório e se cumpriu a noite da despedida.

Para exorcizar os fantasmas da culpa de não ter percebido os sinais, meu pai repetia: “Ela sabia, ela adivinhava o que ia acontecer, porque tudo o que fez já era a despedir-se, e só eu é que não consegui ver”. E insistia que, enquanto lhe preparava as roupas, dizia: “Manuel, eu não gosto que andes para aí mal arranjado!”. E ele satisfez-lhe o desejo até ao fim. Já dependente de cuidados de terceiros, de cada vez que lhe era feita a higiene diária, perguntava-nos depois de vestido e perfumado: “Estou bem? Estou limpinho? Não se esqueçam que era como a vossa mãe me queria ver!”

Desculpava-se, mas não era só por ela, mas por ele também, que tanto gostava de estar bem apresentado. E assim se manteve até ao fim, até ao dia em que se voltaram a encontrar, para, na eternidade, juntos celebrarem o Dia de Todos os Santos.

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