Aida Batista

As Quatro Estações

É tão difícil guardar um rio quando ele corre dentro de nós. -Jorge Sousa Braga

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Na minha infância africana, aprendi a descrever as quatro estações do ano pela ordem em que se sucediam nas páginas do livro único: primavera, verão, outono e inverno. Enumerava-lhes os atributos, que passavam pelo que de mais belo ou útil existia em cada uma delas. No fim, terminava com a inevitável declaração de amor: “Eu gosto muito das estações do ano”, porque esta era a fórmula com que dávamos por findas todas as redações.  Foi assim que enchi a minha memória de muitas páginas de descrições de figuras, animais, paisagens e lugares, sem nunca os ter conhecido ou sequer visitado.

Treinada a obedecer, não me questionava sobre a utilidade de matérias tão ausentes do meu quotidiano, vivido noutras latitudes. Pelo contrário, achava até que contribuíam para me alimentar uma imaginação que, sem outros referentes, criava os seus a partir da informação que ia armazenando.

Talvez seja por isso que, sem dificuldade, desatei o espartilho das ideias feitas e passei a olhar a variedade do mundo, não comungando do ideal de me sentir completa com uma só estação. Há quem consiga, por exemplo, viver apenas com o verão. Esses enaltecem-lhe as temperaturas altas, os dias longos e luminosos, a vida de esplanada e a cerveja bem fresca após um dia de trabalho, os passeios à beira-mar e os mergulhos na praia ao fim do dia, os corpos quase desnudos na leveza da roupa e do calçado com que se vestem a cada novo dia.

Cansada dos dias escaldantes de suor acumulado no rosto, gosto de começar a sentir a pele a arrepiar-se quando a baixa da temperatura anuncia a mudança de estação; de cruzar os braços à frente do corpo como quem ergue uma muralha de proteção contra uma aragem mais fria; de pegar nas abas ainda leves do casaco e apertá-las contra o peito num gesto de aconchego; de puxar a echarpe que me cobre os ombros e enrolá-la até ao pescoço, para travar a entrada da sensação de frio; do simples gesto de caminhar com as mãos metidas nos bolsos, como se dentro deles buscasse o calor com que vou aquecendo o resto do corpo; de começar a sentir o encolher dos dias, cada dia mais pequenos, num convite de regresso a casa mais cedo; de olhar para as árvores que, despidas de folhagem, mostram a rugosidade dos contornos até aí escondidos; de admirar as folhas caídas, em tonalidades de amarelo e vermelho, que rapidamente se acastanham; do restolhar que se solta da pauta dos meus pés quando sobre elas caminho; do cheiro da terra molhada após as primeiras chuvas lhe penetrarem as entranhas; do fumo dos assadores de rua que nos trazem o odor das castanhas, quentinhas e boas, vendidas nos cartuchos das páginas amarelas; da textura da manta com que me enrolo no “choco” do sofá a viajar por entre as personagens de um filme ou de um livro; da dança das labaredas ao som da lenha a crepitar na lareira; da flanela de que são feitos os lençóis que me convidam a ir para a cama antes da hora habitual.

Este é o meu outono, aquele que conheci quando pela primeira vez cheguei a Portugal. Recusa-se a viver na redação da menina que fui, e que, à semelhança de outras, as freiras me obrigaram a decorar. Era igual para todas as alunas da turma – sem cheiros nem cores – feito de palavras vazias de emoções, como uma natureza morta.

E neste outono da vida em que me encontro, dou por mim a recordar um tempo sem estações nem andamentos, mas com um rio enorme de curiosidade a correr dentro de mim.

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DR.

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