Aida Batista

A língua que embala o berço

No passado dia 27 de março, foi feita a apresentação on-line de uma coletânea de narrativas, cujo título, “Menina e Moça me Levaram”, nos remete para a frase com que começa a novela de Bernardim Ribeiro, publicada no séc. XVI. Tratando-se de 44 histórias de mulheres cujas vidas passaram por processos migratórios, de imediato se percebe que estamos apenas perante uma pequena amostra representativa do universo da nossa diáspora feminina.

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Créditos: DR.

Algumas das autoras canadianas participantes na sessão tiveram oportunidade de poder testemunhar o quão importante fora para elas terem podido escrever sobre o percurso das vidas que tiveram de condensar em pouco mais de 1800 palavras. Uma delas, de ascendência açoriana e juíza do tribunal de Toronto, Cidália Faria, começou a sua intervenção em inglês alegando que não se sentiria à vontade a expressar-se em português. E foi em inglês que, de forma muito entusiasmada, continuou a manifestar a sua enorme satisfação por ter feito parte de um projeto em que, como diz no seu texto, “as experiências merecem voz, espaço e atenção.” Levada menina para o Canadá, com três anos, começou por fazer uma sucinta retrospetiva da sua vida, a partir do momento em que o pai, apesar de filho de proprietários rurais, havia decidido emigrar em 1964, devido às limitadas perspetivas económicas que a pequena freguesia de Rabo de Peixe lhe oferecia.

De repente, de forma automática e inesperada, para grande surpresa de toda a assistência, mudou de registo e começou a falar português sem se dar conta, conseguindo exprimir-se de forma espontânea, apesar de aqui e ali lhe faltar um ou outro termo em português. São reações explicáveis apenas por aqueles que se dedicam ao estudo de fenómenos relacionados com o funcionamento do nosso cérebro. Para uma leiga, como é o meu caso, apenas posso dizer que, de cada vez que falamos das nossas raízes, a língua faz parte da seiva que nos alimentou, mesmo que no nosso quotidiano já não nos sirvamos dela. No entanto, de cada vez que, por qualquer razão, voltamos ao mais profundo do chão da nossa infância, é dessa língua primeira que nos servimos, feita dos sons que nos embalaram o berço. 

Penso que foi isso que aconteceu a Cidália Faria. Neste regresso ao passado, deu de caras com o tempo em que crescera entre duas línguas – português e inglês – e com ambas coabitara para verbalizar os dois mundos em que viveu: o português e o canadiano.

Hoje, o seu quotidiano é todo ele em inglês, na sua vertente mais técnica, pejada de jargões com que tem de elaborar processos e ditar as sentenças a que dá despacho. Mas, perante um ecrã onde cerca de uma centena de pessoas se exprimia em português, quando bateu à porta para entrar, um mecanismo qualquer fez soltar-se o carrilhão de sonoridades armazenadas no seu subconsciente.

Um recente projeto de investigação, “A competência linguística de crianças bilingues em contextos de migração em que o português é língua de herança”, coordenado pela investigadora Cristina Flores da Universidade do Minho, em cooperação com “Camões – Instituto da Cooperação e da Língua”, conclui que “o incentivo ao uso do português no seio de famílias portuguesas não prejudica o desenvolvimento da língua maioritária, pelo contrário, estimula-o.” E acrescenta “Quanto maior o uso da língua portuguesa, sobretudo por parte dos pais, mais equilibrado se torna o desenvolvimento linguístico dos seus filhos” (JL 24/03/21).

Os pais de Cidália, sem nada saberem de competências linguísticas, ao terem falado português em casa com a filha, contribuíram para a construção de uma identidade plurilingue que lhe permitiu, de maneira muito mais intimista, participar na sessão de lançamento.

Cidália Faria não escreveu o texto em português mas, quando falou, “falou ela mesma”.

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