Acuidade versus Qualidade

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Uma língua é o lugar donde se vê o Mundo
e em que se traçam os limites do nosso pensar e sentir.
Vergílio Ferreira

Por força da minha formação, é-me solicitado com bastante frequência que faça revisão de textos, da mesma forma que eu, amiúde, também peço que me revejam os meus. A prática ensina-nos que, quando somos nós a reler o que escrevemos, raramente nos apercebemos de pequenos erros que tornam os textos feridos de imperfeições. E não nos damos conta, porque o ato de leitura é global, ou seja, lemos por palavras. Ninguém o faz juntando sílabas, mas olhando para a palavra no seu todo. Por isso, identificamos a narrativa escrita do nosso pensamento, sem nos darmos conta de gralhas, repetições, falta ou excesso de sílabas, erros de concordância, de um plural que deveria estar no singular ou vice-versa, troca da posição das letras dentro da palavras e tantas outras situações que frequentemente ocorrem. Contudo, já me tenho deparado muitas vezes com quem não gosta de ser corrigido, nem quando fala, nem quando escreve. 

No universo da imigração esta situação revela-se de forma ainda mais pertinente, porque as pessoas vivem permanentemente entre duas línguas – a materna e a do país de acolhimento – fenómeno linguístico que toma a designação de diglossia. Nestes casos, é perfeitamente normal utilizar uma delas, mas iniciar a frase com os bordões linguísticos da outra. Explicando melhor: falar em português, mas começar por “So, Well, I mean”. Ou, então, ao utilizar uma delas, mas introduzir com relativa frequência palavras da outra, e até mesmo formar diminutivos na língua em que eles não existem, num processo de transferência que escapa a qualquer gramática. Por exemplo: juicinho (de juice, sumo), candinho (de candy, rebuçado ou outra guloseima), turquinho (de turkey, peru). Os livres exercícios de aproximação à fonética da língua materna, também dão origem a neologismos, que só quem viveu durante algum tempo neste universo consegue entender, sem disso fazer motivo de troça. Poderia dar-vos imensos exemplos, mas, os que me estão a ler, conhecem bem a realidade de que falo, sem que isso constitua qualquer problema no processo de comunicação.

Por defeito profissional, gosto de corrigir e de ser corrigida, na minha língua ou noutra qualquer que esteja a usar. Os meus netos, por exemplo, corrigem-me logo que me ouvem pronunciar mal uma palavra em inglês. Agradeço-lhes sempre, justificando-me com o facto de não gostar de fazer má figura.

Há bem pouco tempo, num jantar de amigos, entre os vários assuntos abordados, veio à baila a publicidade enganosa sobre os aparelhos auditivos. Da forma como ela é apresentada, quem os compra (minúsculos e invisíveis) fica milagrosamente a ouvir bem de um momento para o outro. Basta encomendar e devolver, no caso de não ficar satisfeito. 

A determinada altura, e por brincadeira, dado que vamos todos avançando na idade, proferi a frase que cito de cor: “Pois é, quer queiramos quer não, estamos todos a perder alguma qualidade auditiva!

– Acuidade, senhora professora, acuidade! – brincou o meu amigo que é médico.

De imediato revelei a minha gratidão pela correção. Tal como Alexandre O’ Neil escreveu, no seu poema “Divertimento com sinais ortográficos” –  Dou guarida e afecto/ a vogal que procure um tecto -, também eu doravante darei guarida a esta palavra sempre que a tiver de usar para definir o grau de audição – acuidade em vez de qualidade. Como bem podemos concluir, o vocabulário de uma língua vai muito para além dos conceitos de significante e significado, e existe para ser usado com propriedade num determinado contexto. Porque a língua, à semelhança da música, é também uma questão de ouvido!

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