Opinião

A voz das agendas

Vivo numa carteira de senhora, daquelas de que todas as mulheres são inseparáveis e onde cabe tudo e mais alguma coisa. Por companhia, tenho um porta-moedas, os cartões de crédito e de débito, dois porta-chaves, a bolsinha das canetas, um conjunto básico de maquilhagem (batom, lápis de contorno dos olhos, caixinha de “blush”, pincel e pinça), um maço de lenços de papel, o telemóvel, uma mini e desdobrável escova do cabelo, uma embalagem de toalhetes, uma miniatura de perfume, uma garrafa de água pequena, um livro e sempre qualquer coisita para comer, não vá a minha dona demorar-se mais na rua e ser preciso enganar a fome. Recentemente, ganhei dois companheiros nunca dantes imaginados: a máscara comunitária e um frasquinho de álcool gel.

Apesar de, em primeiro lugar, marcar todos os seus compromissos na agenda do telemóvel, a minha dona nunca prescindiu de mim porque, oiço-a dizer, no caso de o perder ou de ele se avariar, ficará sempre com a sua vida registada em papel. Além disso, acrescenta ainda, de cada vez que mudar de telemóvel, não corre o risco de enviar para a reciclagem o registo de um passado mais recente.

Graças aos seus velhos hábitos, continuo a sentir-me testemunha fiel do seu quotidiano, onde não faltam dias e horas a assinalar um calendário muito preenchido, enquanto a palavra ócio não fizer parte do seu léxico diário. Reconheço, no entanto, que em tecnologia não posso competir com a digital, dotada de um sonoro plim que, ao ganhar voz, atempadamente a previne das tarefas agendadas.

Há mais de dois meses que vivemos ambas – eu e a do telemóvel – vazias de encargos. Fomos as primeiras vítimas deste vírus que forçou o cancelamento de todas as obrigações. A do telemóvel ainda teimava em se fazer ouvir de vez em quando, mas, no meu caso, muda como sempre fui e impedida de me manifestar, aconteceu tudo de forma bem mais drástica. Um dia, abriu-me no mês de março e com uma caneta riscou, um a um, todos os compromissos que me enchiam páginas avulsas, mergulhando-me no silêncio dos dias. Aqueles golpes nas minhas entranhas doeram muito, fazendo-me sentir vazia. Como uma grávida impedida de, por qualquer complicação, terminar a gestação da gravidez que carrega dentro de si.

Confesso que tive muito medo de, dali em diante, perder o prazo de validade e ir parar à caixa negra onde estão todas as minhas companheiras de anos anteriores. Infundadas suspeitas! Deixei de ver a luz do dia, passei a estar muito mais tempo em casa, mas continuo guardada e bem aconchegadinha junto aos outros pertences.

À minha dona, por natureza avessa ao vazio, resta-lhe agora o “moleskine” da diarística onde, com regularidade, despeja perplexidades e a angústia de tempos incertos, para os quais os cientistas, eles também colhidos de surpresa, ainda não encontraram resposta. Nos últimos dias, porém, noto que começa a trilhar caminhos de esperança. Na passada semana, já me voltou a abrir e, após a troca de alguns cautelosos telefonemas, marcou cabeleireiro, manicure, pedicure e dois almoços. Seguiram-se duas aulas de ioga, ao ar livre, para se poder manter o distanciamento imposto. Estes novos passos, lentos e tímidos, são já prenúncio de um ânimo novo, de uma nova normalidade – como agora se diz – percetível na voz e no caminhar que ganha um ritmo mais apressado.

Prisioneira do confinamento forçado, oiço-a desabafar com os amigos – admite sentir que a vida lhe está a ser devolvida.  Devol-vida, ter a vida de volta! A dela e a minha que, em breve, não terei mãos a medir para dar resposta a quem temporariamente viveu sem motivação.

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